A JÓIA SUPREMA DO DISCERNIMENTO                                           (VIVEKACHUDAMANI)                                               (Viveka Churhamoni)

SRI SHANKARACHARYA

Traduzido (com notas) do original para o espanhol por Swami             Vijoyananda 1 , monge da Ordem Ramakrishna

ॐ      1. Saúdo ao meu bondoso Guru (Mestre espiritual) Govinda, cuja         natureza é bem-aventurança suprema, a quem só é possível         conhecer quando se realiza o verdadeiro significado da filosofia         Vedanta, quem está além do alcance da palavra e do pensamento.

(Govinda é um dos nomes de Deus, em Seu aspecto protetor,         Vishnú).

2. É difícil lograr o nascimento como ser humano; mais ainda como         homem; mais raro ainda como brahmin; mais ainda como aquele         que segue a religião védica; muito mais adquirir a erudição das         escrituras; o discernimento entre o Ser e o não-Ser (o Real e a         irrealidade), a realização suprema da espiritualidade e o logro do         estado de contínua identidade com Brahman (o Supremo). A         liberação (o final da ignorância) não se conquista sem os méritos         conseguidos em milhões de vidas.

Swami Vijoyananda (1898‐1973), discípulo de Swami Brahmananda, foi o pioneiro da Vedanta na América do Sul e líder espiritual do Ramakrishna Ashrama, Buenos Aires, Argentina.

Nota: A tradução do Espanhol para o Português foi feita por um estudante dos ensinamentos de Sri Ramakrishna, Swami Vivekananda e Vedanta.

3. Existem três coisas que na verdade são excepcionais e que só são    logradas pela misericórdia divina: o nascimento humano, o anelo    pela liberação e a cuidadosa proteção de um sábio espiritual que    alcançou a perfeição.

4. Realmente comete suicídio aquele que após haver nascido como ser    humano, em corpo masculino e que, além disso, tem profundo    conhecimento dos Vedas, como um néscio não faz esforço algum    para conseguir a liberação; este homem marcha para sua própria    destruição apegando-se aos objetos efêmeros.

5. Há alguém mais néscio que aquele que, depois de haver tomado    este excepcional corpo masculino do ser humano, se torna    negligente e não faz o esforço devido para conquistar a meta real    desta vida (a liberação)?

6. Ainda que as pessoas citem as escrituras e façam todos os cultos e    adorações às distintas divindades, tudo isto não lhes dará a    liberação final até que realizem sua identidade com o Atman (o    Ser); não, nem no incontável tempo de cem Brahmas.

(Segundo a    mitologia hindu, um Brahmá dura em seu ofício de Criador, cem    anos celestiais.

Um dia celestial equivale a 432 milhões de anos    humanos).

7. Declaram os Vedas: Não há esperança de conseguir a imortalidade    pela riqueza.

Por isso é evidente que as distintas obras não podem    causar a liberação.

8. Portanto, o homem preparado deve fazer o maior esforço para    alcançar a liberação final.

Depois de haver renunciado ao desejo de    gozar os objetos externos, deve se aproximar, como corresponde,    de um preceptor bondoso e fixar sua mente sobre a verdade    infundida por ele.

9. Havendo logrado o estado de Yoga rudha (mencionado no Bhagavad    Gita, VI-4, aquele que não está apegado aos objetos dos sentidos    nem às ações e renunciou a todos os desejos mundanos, logra este    estado), por devoção ao verdadeiro discernimento, deve salvar-se    do oceano de nascimento e morte, onde estava profundamente    submerso.

10. Que o homem erudito e inteligente, depois de haver começado a    prática de realizar ao Atman, renuncie a toda atividade egoísta e    tente cortar os laços do nascimento e morte.

11. A ação (ainda que seja boa) só purifica a mente; o trabalho não    produz (diretamente) a percepção da Realidade.

O logro da Verdade

é causado pelo discernimento; não se logra absolutamente nada   nem pela realização de dez milhões de atos.

12. Pelo adequado raciocínio, se consegue a convicção sobre a    realidade de uma corda, o que extermina o angustioso temor e o    estado miserável provocado pela (irreal) serpente produzida pela    mente enganada.

(Vendo a corda no solo, na escuridão, a mente    gera com isso uma serpente [pensa que é uma serpente] e sente    medo).

13. Nota-se que a convicção da Verdade surge do raciocínio sobre os    conselhos benéficos de um sábio perfeito; mas jamais pelos banhos    nos rios sagrados nem pelas obras de caridade, nem por centenas    de pranayama (prática de respiração yóguica).

14. O êxito depende essencialmente de que o aspirante esteja bem    preparado.

O tempo, o lugar e outros meios são fatores    subsidiários.

15. Portanto o aspirante da Realidade, depois de aproximar-se do    Guru, que deve ser o melhor dos conhecedores de Brahman e cuja    bondade é tão imensa como o oceano, deve fazer a introspecção.

16. Aquele que é inteligente e instruído e que sabe argumentar em    favor das escrituras e pode refutar todos os argumentos contrários,    é considerado como digno recipiente do conhecimento do Atman.

17. O homem que sabe discernir entre o Real e o irreal, cuja mente se    afastou da irrealidade, que possui calma e as outras virtudes    requeridas e anela fervorosamente a liberação final, só ele é    considerado com a preparação para inquirir sobre Brahman (o    Supremo).

18. A este respeito os sábios falaram de quatro classes de práticas    sucessivas, cujo exercício faz prosperar o fervor por Brahman, e em    sua ausência acontece o contrário.

19. Antes de tudo é necessário o discernimento entre o Real e a    irrealidade; segue a aversão pelo gozo dos resultados que as ações    produzem aqui e no além; depois vem a prática dos seis requisitos    essenciais, como a calma e outros e por último os sábios bem    claramente falam do anelo pela liberação.

20. A firme convicção da mente de que Brahman é o único Real e que    o universo é irreal, é conhecida como viveka (discernimento) entre    o Real e o irreal.

21. Vairagya ou renúncia é o desejo de abandonar todos os gozos    transitórios que começam por ter um corpo vivo e terminam no    estado de Brahma (Criador), (ao conhecer seus defeitos e    desvantagens) pela própria observação, a instrução do preceptor e    suas práticas.

22. A prática de manter firme a mente sobre sua meta (Brahman),    depois de separá-la dos múltiplos objetos dos sentidos pela    contínua observação dos defeitos que estes têm, é conhecida como    shama, ou calma.

23. Dama, ou prática de autocontrole, é retirar os órgãos de ação (as    cordas vocais, as mãos, as pernas, os órgãos genitais e o de    evacuação) e os de percepção (os olhos, o nariz, os ouvidos, a    língua e a pele) dos objetos que os atraem e colocá-los em seus    respectivos centros.

A melhor classe de uparati, ou o referido    recolhimento, se logra quando não se permite que a mente funcione    diante dos impactos dos objetos externos.

24. Titiksha, ou imperturbabilidade, é suportar todos os tipos de    aflições sem ocupar-se em remediá-las e ao mesmo tempo sem    queixa e inquietude.

25. Os sábios chamam shrad-dha ou crença, a verdadeira aceitação    dos conselhos do Guru e das escrituras sagradas, depois de haver    reflexionado devidamente sobre eles.

Por tal aceitação o Real é    percebido.

26. Samadhana, ou firme convicção sobre o Ser, se logra pela    constante concentração do intelecto, ou faculdade determinativa, no    puro Brahman e não pela condescendência com os pensamentos    vagos.

27. Mumukshuta, ou ardente anelo de liberação, é o constante desejo    de liberar-se de todas aquelas amarras imaginadas pela influência    da ignorância primária que começa com o egoísmo e termina com o    corpo; este desejo nasce quando o Ser se dá conta de sua    verdadeira natureza.

28. Mesmo quando este anelo pela liberação é fraco ou moderado, pela    graça do Guru pode produzir resultado, se são feitas as práticas de    renúncia, calma e as outras.

29. Quando a renúncia e o anelo pela liberação são intensos, então as    práticas de calma e as outras são frutíferas e compreende-se seu    significado.

30. Mas quando a renúncia e o anelo pela liberação estão em um    estado de letargia [inertes, sem intensidade], as práticas de calma    e as outras são meramente aparências, como ver água no deserto    (miragem).

31. Entre as coisas que conduzem à liberação, a devoção ocupa o    primeiro lugar.

(Segundo o Monismo) devoção é a busca da    natureza real de si mesmo.

32. Há outros que opinam que devoção é indagar a verdade do Ser de    si mesmo.

O buscador de tal verdade que possua as virtudes já    mencionadas deve aproximar-se de um sábio preceptor, que lhe    outorgará a emancipação.

33. -34. Guru (Mestre espiritual) é aquele que está versado nos Vedas,    que não tem nenhum pecado, nem está vencido pelos desejos, que    é o melhor dos conhecedores de Brahman, que está estabelecido    em Brahman, tranqüilo como um fogo cujo combustível foi    consumido (porque todas suas atividades no plano relativo    cessaram para sempre), que é como um infinito oceano de    bondade, que não faz nenhuma distinção e é amigo de toda pessoa    boa que se prosterna ante ele; aproximando-se e saudando com    devoção a este Guru e satisfazendo-o pela saudação, humildade e    serviço pessoal (o discípulo) deve fazer-lhe perguntas sobre tudo o    que quer saber.

35. Ó Mestre, amigo dos respeitosos, oceano de bondade, te saúdo.

Caí neste oceano de nascimento e morte; salve-me com teu olhar    direto que esparge a doce bondade suprema.

36. Salve-me da morte; estou me queimando no tremendo fogo desta    selva mundana; aterrorizado, estou tremendo diante dos ventos de    origem desconhecida que me levam daqui para lá (dos resultados    das más ações passadas). Tomo refúgio em ti, porque não conheço    a ninguém mais.

37. Existem almas boas, tranqüilas e com magnanimidade, que como a    primavera, fazem bem a todos, que depois de haver cruzado este    espantoso oceano de nascimento e morte ajudam a outros a cruzá-    lo, sem nenhum motivo particular (por sua natureza bondosa).

38. A natureza dos magnânimos é atuar voluntariamente, ajudando    aos demais a livrar-se de suas dificuldades.

Por exemplo, aqui está    a lua que, como todos sabem, voluntariamente salva a terra dos    raios abrasadores do sol.

39. (Disse o aspirante:) Ó Senhor, eu que estou atormentado pelas    aflições mundanas, que são como as chamas do fogo no bosque,   rocia-me com tuas palavras de néctar, especialmente adocicadas   pela tua bem-aventurança de Brahman, aquelas palavras puras e   refrescantes que brotam de teus lábios como água de manancial.

Benditos são os que, ainda que por um olhar passageiro teu, são   aceitos por ti.

40. Nada sei sobre como cruzar este oceano da existência fenomenal,    de qual será minha sorte e que caminho devo tomar.

Por favor,    salve-me, ó Senhor, e ensine-me detalhadamente como pôr um fim    a este sofrimento da existência relativa.

41. Quando atormentado pelas aflições do mundo, que é como um    bosque em chamas, e buscando a proteção do santo, o aspirante    falou assim, o grande Ser olhou com imensa ternura para ele e de    repente lhe disse que deixasse toda ideia de medo.

42. O sábio por pura compaixão começou a dar conselhos sobre a    Verdade a este aspirante que, anelando a liberação, se havia    refugiado nele.

O aspirante obedecia devidamente todos os    mandamentos das escrituras, a condição natural de sua mente era    tranqüila e, além disso tinha o treinamento de shama (veja verso    22).

43. (Disse o sábio:) Ó erudito, não tenhas medo, não há morte para ti.    Existe um meio de cruzar este oceano da existência.

Aconselharei a    ti sobre aquele mesmo caminho que os sábios seguiram para cruzar    este oceano.

44. Existe um grande meio que aniquila o medo da existência relativa;    por este meio cruzarás o oceano de samsara (literalmente, o que se    move constantemente, este mundo de nascimento e morte) e    lograrás a bem-aventurança suprema.

45. Da introspecção sobre o significado da Vedanta nasce o    conhecimento superior, que é seguido imediatamente pela    destruição total do sofrimento da existência relativa.

46. O Shrutis (os Vedas; são também chamados assim porque    antigamente eram aprendidos de ouvido, em forma oral) declaram    que, para aquele que anela a liberação, os requisitos imediatos são:    fé, devoção e o yoga da meditação.

Quem quer que os possua se    libera das amarras do corpo que é uma obra de prestidigitação    (ilusionismo) de avidya (ignorância primária).

47. Realmente, pelo contato com a ignorância, tu que és o Ser    Supremo, te encontras ligado com o não-Ser e daí procede o ciclo    de nascimento e morte.

O fogo do conhecimento que foi aceso pelo    discernimento, queima até a raiz os efeitos de avidya.

48. Disse o discípulo: Ó mestre, concede-me o favor de escutar a    pergunta que vou fazer.

Eu me sentirei sumamente satisfeito de    ouvir uma resposta vinda de teus lábios.

49. Na verdade, o que é a amarra? De onde veio? Como continua    existindo? Como nos libertamos dela? Que é este não-Ser? Quem é    o Ser Supremo? Como se faz o discernimento entre eles? Por favor,    fala-me sobre tudo isto.

50. O Guru respondeu: És afortunado! Lograste a meta de tua vida;    santificaste tua família desejando o estado de Brahman, libertando-    te das amarras da ignorância.

51. Um pai tem a seus filhos e outros para que o libertem de suas    dívidas (pagando-as); mas não tem a ninguém mais que a si    mesmo para romper suas amarras.

52. O mal-estar causado por um objeto pesado sobre a cabeça pode    ser aliviado por outros (tirando tal objeto), mas ninguém além de si    mesmo pode pôr fim ao sofrimento causado pela fome, etc..

53. Se vê curar por completo ao enfermo que (pessoalmente) toma o    remédio e segue a dieta adequada e não porque o faça o próximo.

54. A verdadeira natureza dos objetos deve ser conhecida    pessoalmente, pelo olho da iluminação clara e não através de outro,    ainda que seja um sábio.

O que a lua é realmente é conhecido pela    própria visão; por acaso outros podem fazê-lo saber?

55. Quem além de si mesmo pode salvar-se das correntes e amarras    causadas pela ignorância, os desejos e as ações? Por outros, nem    em um bilhão de ciclos.

56. Nem pela prática de hatha yoga (que somente fortalece o corpo),    nem seguindo o sistema Samkhya (que predica o discernimento    entre o Ser individual e a natureza físico-mental), nem pelos    trabalhos meritórios (que dão prazer e satisfação aqui e gozos    celestiais após a morte), nem pela erudição, se logra a liberação.

Somente realizando a identidade entre o Ser e Brahman se libera,    outros meios não servem.

57. A beleza da forma da vina (instrumento musical de cordas) e a    técnica de tocá-la, meramente causam certo prazer a algumas    pessoas; mas não oferecem soberania a ninguém.

58. O dom da conversação didática, que é como uma chuva de meras    palavras, a desenvoltura em explicar os textos religiosos e outros

tipos de erudição, trazem um pouco de alegria ao instruído, mas   tudo isto não serve em absoluto para a liberação.

59. Em vão é o estudo dos livros sagrados se a suprema verdade    permanece desconhecida; igualmente resultam inúteis os estudos    quando se logra o conhecimento supremo.

60. As escrituras, cheias de palavras, são como um bosque onde a    mente perde seu rumo.

Por isso o sábio deve dedicar-se unicamente    a conhecer a verdadeira natureza do Atman.

61. Para aquele que foi mordido pela serpente da ignorância, o único    remédio é o conhecimento de Brahman.

De que podem servir os    Vedas, os Mantrams (formulas sagradas), as escrituras e outros    remédios?

62. Assim como só pronunciando o nome do medicamento não se cura    a enfermidade, porém é necessário tomá-lo, assim também, sem    ter o conhecimento direto ninguém logra a liberação.

A mera    pronúncia da palavra Brahman não produz grande efeito.

63. Até que se faça desaparecer (da mente) ao mundo objetivo e se    conheça a verdade do Ser, como é possível lograr a liberação    repetindo somente a palavra Brahman? Isto resultaria em mero    esforço de articulação fonética.

64. Sem destruir aos inimigos e sem possuir a glória de ser dono de    todo território circunvizinho ninguém se faz imperador somente pelo    fato de repetir: “Sou o imperador”.

65. Para ser dono de uma pedra preciosa que está oculta sob a terra,    necessita-se adequado conhecimento (geológico), o trabalho de    escavação, tirando todas as pedras e demais obstáculos que a    cobrem e por último, pegá-la para si; mas nunca dizendo apenas:    “Que saia a pedra” nos apossamos dela.

Assim, a verdade    transparente do Ser que está coberto por Maya e seus efeitos, só se    realiza pelos conselhos de um conhecedor de Brahman e depois    pela introspecção e demais práticas, mas jamais por argumentações    inúteis.

66. Por isso, da mesma forma que nos casos de enfermidade e outros,    o bom aspirante, pessoalmente deve fazer todos os esforços para    liberar-se dos repetidos nascimentos e mortes.

67. A pergunta que me fizestes é excelente, é aprovada pelos    conhecedores das escrituras, é significativa e deve ser feita por    todos os aspirantes que buscam a liberação.

68. Ó instruído, agora escuta com atenção o que vou lhe dizer.

Ouvindo-o, imediatamente te libertarás das amarras deste mundo.

69. O primeiro passo à liberação inicia com a extrema aversão por    todos os objetos perecedouros; logo seguem as práticas de calma,    autocontrole, imperturbabilidade e a renúncia a todos os trabalhos    que se fazem para lograr mérito.

70. Depois vem o ato de ouvir (a suprema verdade dos lábios do    Guru), reflexionar sobre o que foi ouvido e a ininterrupta e    constante meditação sobre a Verdade.

Fazendo tudo isso o sábio    logra o estado de Nirvikalpa e nesta mesma vida goza da bem-    aventurança do Nirvana (estado supra-consciente e inexpressável;    neste estado todas as ondas mentais se detêm, não há mais    distinções entre sujeito e objeto e o aspirante se une para sempre    com o Ser Supremo).

71. Agora lhe falarei extensamente sobre o discernimento entre o Ser    e o não-Ser.

Isto é o que deve saber.

Escute com atenção e depois    tome sua decisão.

72. -74. Os sábios denominam de corpo denso a esta morada da    paixão irracional pelo “eu” e “meus”, que está constituído de sete    componentes: medula, ossos, gordura, carne, sangue, pele e    cutícula.

Este corpo tem os seguintes membros e suas partes: as    pernas, os músculos, o peito, os braços, as costas e a cabeça.

Os    elementos sutis são: éter, ar, fogo, água e terra; a união deles    entre si forma este corpo denso e as essências dos elementos    mencionados formam os sentidos: ouvido, tato, olfato, paladar e    visão.

Os objetos dos sentidos proporcionam alegria e tristeza ao    ser individual, que é quem faz as experiências (os objetos nascem    da união da metade de um elemento e um oitavo de cada um dos    quatro restantes).

75. Aqueles néscios que estão atados a estes objetos dos sentidos pela    forte corrente do apego, que é difícil de romper, vêm e vão para    cima ou para baixo (nascem em diferentes corpos e morrem) como    obrigados pelos emissários criados por sua própria ação (Os    samskaras, a parte sutil de nossa experiência, dos pensamentos e    ações, são os emissários que nos obrigam a tomar tal ou qual    corpo).

76. Por seu apego particular ao som morre o cervo, ao tato o elefante,    ao olfato a abelha negra, ao paladar o peixe e a cor da chama a    mariposa.

Podes imaginar o que espera ao homem que está    apegado aos cinco sentidos.

77. Os objetos dos sentidos são mais virulentos, em seus maus efeitos,    que o veneno da cobra.

O veneno [da cobra] só mata ao homem    quando é ingerido, enquanto que os objetos dos sentidos matam    apenas pelo contato com qualquer órgão.

78. Só aquele que está livre das terríveis amarras do desejo pelos    objetos dos sentidos, que são muito difíceis de romper, está    preparado para a liberação e ninguém mais; ainda que seja muito    versado nas seis filosofias.

79. O tubarão do desejo segura pela nuca aqueles aspirantes que, por    desapego superficial, estão tentando cruzar este oceano de samsara    (nascimento e morte). Este tubarão os arrancam violentamente de    suas práticas e os afogam na metade do caminho.

80. Aquele que matou o tubarão dos desejos com a espada do    desapego maduro, se sente livre de todos os obstáculos e cruza o    oceano de samsara.

81. Saiba que a morte logo alcança o néscio que caminha pelas    terríveis trilhas dos prazeres sensórios, enquanto que aquele que    conduz sua vida conforme os conselhos de um verdadeiro Guru, que    é quem melhor o quer, e também por seu próprio raciocínio, logra a    meta.

Conheça isto como a verdade.

82. Se realmente tens o anelo de lograr a liberação, afaste-se para    longe dos objetos materiais como se fossem venenosos e cultive    sempre cuidadosamente as grandes virtudes do contentamento,    compaixão, indulgência, honradez, calma e autocontrole.

83. Abandonando o contínuo esforço para emancipar-se da ignorância    que não tem princípio, aquele que apaixonadamente se dedica a    nutrir seu corpo, que é um objeto de gozo para outros, comete    suicídio.

84. Qualquer um que aspire em estabelecer-se no estado do Ser    dedicando-se unicamente a nutrir o corpo, perece como aquele que    cruza o rio abraçado a um crocodilo, confundindo-o com um tronco.

85. A paixão irracional pelo corpo e os demais objetos, é a morte certa    para um aspirante à liberação.

Aquele que a venceu completamente    merece ser livre.

86. Vence a paixão irracional pelo corpo, pela esposa e filhos.

Derrotando-a, os sábios alcançaram o supremo estado de Vishnú    (liberação).

87. Este corpo denso feito de pele, carne, sangue, veias, artérias,    gordura, medula, ossos e outras coisas sujas, deve ser desprezado.

88. Este corpo é produzido pelas ações passadas de si mesmo, dos    elementos densos constituídos pela quíntupla união dos elementos    sutis.

Este corpo é o meio para as experiências do ser individual    que, quando está desperto, percebe os objetos densos.

89. O ser individual, ainda que sempre esteja separado, ao identificar-    se com esta forma, goza pelos órgãos externos aos objetos densos    como as guirlandas, pasta de sândalo, etc.

No estado de vigília este    corpo funciona plenamente.

90. Saiba que este corpo denso é como um lar para aquele que vive    uma vida no mundo.

Por ele o homem faz todos seus tratamentos    com o mundo externo.

91. As diferentes características do corpo denso são: nascimento,    decrepitude e morte.

A infância, a juventude, a gordura, a esbeltez,    etc., são suas distintas condições.

Este corpo tem várias restrições    com relação à posição social, está sujeito às enfermidades e    também recebe diferentes tratamentos como adoração, insulto ou    altas honrarias.

92. Os ouvidos, a pele, os olhos, o nariz e a língua são os órgãos de    conhecimento, porque eles nos ajudam a conhecer os objetos.

O    órgão vocal, as mãos, as pernas, etc., são os órgãos de ação.

93. -94. O órgão interno, segundo sua função se chama: manas    (mente), quando reflexiona sobre o “sim” ou “não” de uma ideia ou    objeto; bud-dhi, quando determina a verdade de algo, ahamkara    (ego) quando se identifica com o corpo e chitta, quando funciona    buscando os objetos de gozo.

95. Como o ouro ou a água, que conforme suas modificações levam    nomes distintos, assim o mesmo prana, segundo sua função é    conhecido como prana, apana, vyana, udana e samana.

96. O grupo dos cinco órgãos da ação, o dos cinco de conhecimento, o    dos cinco pranas, o dos cinco elementos, o órgão interno (bud-dhi e    os demais), a ignorância primária, o desejo e a ação, são as oito    “Cidades” que compõem o corpo sutil.

97. Ouve: este corpo sutil, que também se chama corpo linga, é    produzido pelos elementos básicos, antes do processo de subdivisão    e reagrupamento e tem os desejos que obrigam ao ser individual a    ter experiências dos frutos das ações.

Este corpo sutil é somente    um atributo que não tem princípio e que o Ser o leva por sua   própria ignorância.

(Este atributo nascido da ignorância forma o   conceito de “individualidade”.)

98. -99. O sonho é um estado diferente da vigília, nele o Ser brilha por    si mesmo.

Neste estado, bud-dhi (o órgão interno) empurrado pelos    desejos do estado de vigília atua por si só, desempenhando os    diferentes papéis de sujeito e objetos, enquanto o Ser brilha em    Sua própria gloria.

Neste estado o Ser se mantém como    testemunha sem conexão; as ações de Seu único atributo, bud-dhi,    não o mancham.

100. Assim como a enxó e outras ferramentas são instrumentos nas   mãos de um carpinteiro, assim este corpo sutil é o instrumento para   todas as atividades do Ser.

Por isso, o Atman é perfeitamente   inconexo.

101. Ver bem, ver pouco ou não ver nada são condições do olho,   devido meramente a sua aptidão ou defeito.

Assim também com a   surdez e a mudez, que são condições do ouvido e do órgão vocal,   mas jamais são do Atman, o Conhecedor.

102. Os sábios opinam que inalar, exalar, bocejar, espirrar, secretar,   deixar o corpo, etc., são funções do prana e das demais (forças   vitais). As características próprias do prana são a fome e a sede.

103. O órgão interno (a mente matéria), que está dotado do reflexo do   Atman, tem seu assento nos órgãos tais como o olho, etc., e   também no corpo, identificando-se com todos eles.

104. Saiba que o ego é aquele que, identificando-se com o corpo, se   torna o ator, aquele que goza ou sofre e também assume os três   estados (de vigília, sono com sonhos, e sono profundo), quando se   associa com os três gunas (sattva, rajas e tamas) da prakriti.

(Os   três gunas são os fatores constituintes da natureza).

105. Este ego se sente alegre quando são agradáveis os objetos dos   sentidos e sofredor e miserável quando são desagradáveis.

Por isso,   alegria e sofrimento são características do ego e nunca do sempre   bem-aventurado Atman.

106. O agradável dos objetos dos sentidos não é próprio deles; eles o   têm porque o Atman, que é o mais querido de tudo, se manifesta   neles.

Assim o Atman é sempre bem-aventurado, nunca sofre.

107. Os Shrutis (Vedas), a percepção direta, a tradição e a inferência   claramente atestam que durante o sono profundo temos a   experiência da bem-aventurança do Atman, que não depende dos   objetos dos sentidos.

108. Avyakta (a não-manifestada, a prakriti, antes da evolução   cósmica, no estado de perfeito equilíbrio), avidya ou maya, é a   força do Senhor; ela não tem princípio; os três gunas são seus   componentes e é superior aos efeitos.

Só aquele que possui um   intelecto claro pode inferir sua presença; ela é aquela que projeta o   universo inteiro.

109. Não é existente, nem é inexistente, nem toma parte de ambas as   características; não é a própria, nem é diferente, nem ambas as   coisas.

Não está composta, nem é indivisível, nem ambas as coisas.

Ela é a mais maravilhosa, não é possível descrevê-la com palavras.

110. Esta maya pode ser destruída pelo verdadeiro conhecimento do   puro Brahman, o Um sem segundo, da mesma maneira que se   corrige pelo discernimento da corda a equivocada ideia da serpente   [referência à ilusão de se ver no escuro uma serpente em uma   corda jogada no solo]. Os gunas (partes componentes) de maya   são: rajas, tamas e sattva, conhecidos por suas respectivas   funções.

111. Rajas tem vikshepa-shakti (poder de projeção), cuja natureza é   atividade e desta força emanou a atividade primária (que causa   alternadamente a evolução ou a involução deste mundo   fenomenal). Também de rajas se produzem continuamente as   modificações mentais como o apego, tristeza, etc.

112. Luxúria, ira, avareza, arrogância, rancor, egoísmo, inveja, etc.,   são os atributos deploráveis de rajas.

A tendência mundana dos   seres humanos vem de rajas; por isso rajas causa a escravidão.

113. Tamas tem o poder de avritti (que cobre a realidade). Este poder   faz com que as coisas pareçam diferentes do que são.

Este é o   poder que causa as repetidas transmigrações dos seres humanos e   aquele que inicia ao poder de projeção.

114. Até os muito sábios e eruditos, como também as pessoas bem   versadas no tema do sutilíssimo Atman, ficam vencidos pelo poder   de tamas e não chegam a compreender a verdadeira natureza do   Atman, mesmo quando é explicada claramente de vários modos.

O   que é puramente uma ilusória superposição, eles a consideram   como real e aderem à seus efeitos.

Ó, que poderosa é esta avritti (a   força de cobrir que tamas possui)!

115. Aquele que tem algum contato com esta avritti, jamais pode   afastar-se da ausência do juízo correto, sempre faz juízos   equivocados, carece de convicção e sempre duvida.

Em seguida, o   poder de projeção lhe causa incessante sofrimento.

116. Os atributos de tamas são: ignorância, languidez, procedimento   indigno, sonolência, negligência, estupidez, etc.

Aquele que se   conecta com estes atributos perde toda compreensão e vive como   adormecido ou inerte como um poste.

117. O sattva puro é transparente como água clara; no entanto,   quando se une com rajas e tamas, causa a transmigração.

A   realidade do Atman se reflete em sattva e como o sol ilumina a   natureza inteira.

118. Os signos de sattva misto (com rajas e tamas) são a completa   ausência de vaidade, niyama (pureza, contentamento, etc.); yama   (veracidade, não - matar, etc.); fé, devoção, anelo de liberação,   tendências divinas (ver os primeiros versos do capítulo XVI do   Bhagavad Gita) e afastar-se da irrealidade.

119. Os signos de sattva puro são: a alegria, a realização do próprio   Ser, paz suprema, contentamento, bem-aventurança e devoção   permanente ao Atman, pela qual o aspirante goza da bem-   aventurança eterna.

120. Este não-manifestado (avyakta) composto dos três gunas é o   corpo causal do Ser.

Seu estado especial é o sono profundo,   durante o qual as atividades da mente e dos órgãos ficam detidas.

121. No sono profundo cessam todas as percepções; neste estado a   mente permanece como uma semente muito sutil.

A prova disto é o   veredicto universal: “Durante este período não tive noção de nada”.

122. O corpo e os órgãos, os pranas, a mente, o ego, etc., todo tipo de   funções físicas e mentais, os objetos dos sentidos, prazer, tristeza,   os elementos e, em uma palavra, o universo inteiro, até o avyakta,   tudo isto é o não-Ser.

123. Desde o Mahat (inteligência cósmica) até o corpo denso, tudo é   obra de maya.

Saiba que tudo isto e a própria maya, são o não-Ser,   são irreais como uma miragem.

124. Agora lhe falarei da natureza do Paramatman, por cuja realização   o homem rompe com suas amarras e logra a liberação final.

125. Existe certa entidade absoluta, que é a base permanente da   consciência do Eu, a testemunha dos três estados (vigília, sono com   sonhos e sono profundo) e diferente das cinco envolturas (feitas de   anna: matéria; prana: força; manas: pensamento; vijnana:   conhecimento; ananda: bem-aventurança).

126. Esta entidade conhece tudo o ocorre nos estados de vigília, sono   com sonhos e sono profundo; ela é consciente da presença ou   ausência da mente e suas funções e é a base da noção do “eu”. É o   Paramatman.

127. Aquele que vê tudo, mas não pode ser visto por ninguém, que   ilumina ao bud-dhi e aos outros (mente, ego, etc.), mas não pode   ser iluminado por ninguém, é o Paramatman.

128. Aquele que interpenetra este universo, mas que ninguém pode   penetrar; que ao brilhar faz com que todo universo brilhe como Seu   reflexo, é o Paramatman.

129. Por sua mera presença, este corpo, os órgãos, a mente e o   intelecto cumprem como servos com suas respectivas funções.

130. Por causa d’Aquele é que desde o ego até o corpo, os objetos dos   sentidos, o prazer e as demais sensações são bem conhecidas, igual   que se conhece uma jarra ao apalpá-la; porque Aquele é a essência   do conhecimento eterno.

131. Este é o Ser mais íntimo, o Purusha (Ser) primário; Sua natureza   é estar estabelecido na bem-aventurança infinita, Sua existência   não varia nunca; no entanto, se reflete nas diferentes modificações   mentais.

Por Seu mandato, os diferentes órgãos e pranas, cumprem   suas funções.

132. Neste mesmo corpo, na mente sáttvica (pura), na câmara secreta   do intelecto há um espaço, conhecido como o não-manifestado.

Ali,   o Atman, de beleza extraordinária, brilha como o sol e manifesta   este universo por Sua própria refulgência.

133. O conhecedor das manifestações da mente, ego, atividades do   corpo, órgãos e pranas, aparentemente toma a forma deles, como o   fogo toma a forma de uma bola de ferro candente.

Mas Ele não atua   nem está sujeito à mudança alguma.

134. Não nasce, nem morre, não cresce, nem envelhece, sendo eterno   não sofre mudança alguma.

Não deixa de existir mesmo quando   este corpo é destruído.

Por ser independente, permanece igual   como o espaço depois da destruição da jarra.

135. O Ser Supremo é diferente da prakriti (origem do universo), e   suas modificações.

Ele é Absoluto, Sua natureza é o conhecimento   puro; manifesta diretamente este universo, denso e sutil, nos três   estados de vigília, etc., como base do persistente sentido do ‘eu’.   Também se manifesta como testemunha do intelecto, que é a   faculdade determinativa.

136. Pela mente controlada e o intelecto purificado, realize diretamente   teu próprio Ser e assim identificando-te com Ele, cruze o imenso   oceano de samsara (o que se move constantemente; este   universo), cujas ondas são o nascimento e a morte e estabelece-te   em Brahman, que é tua própria essência e seja bem-aventurado.

137. Esta escravidão do homem é obra da ignorância; é o resultado de   identificar o Ser com o não-Ser e por isso sofre o nascimento e a   morte.

Devido a essa ignorância o homem considera como real a   este corpo transitório e identificando-se com ele, o nutre, o banha e   tenta preservá-lo com diferentes objetos agradáveis e assim   permanece envolto como um verme pelas fibras do casulo.

138. Aquele que está dominado pela ignorância, se confunde e toma   uma coisa por outra.

A ausência de discernimento o obriga a   confundir a corda pela serpente e sofrer medo e outras coisas como   estas.

Assim, amigo meu, se forma a corrente quando o homem se   equivoca e aceita como real ao transitório.

139. Esta avritti (força que encobre) cheia de ignorância, envolve ao   Atman que é indivisível, eterno, o Um sem segundo, cuja glória é   infinita e que se manifesta pelo poder do conhecimento.

Esta força   domina ao Ser como Rahú o faz com o sol (segundo a mitologia   hindu, o demônio Rahú periodicamente domina ao sol; assim   acontecem os eclipses solares).

140. Quando seu próprio Ser que está dotado de puríssimo esplendor   permanece oculto, então o homem ignorante se identifica com o   corpo, que é o não-Ser.

Em seguida, a grande força de rajas,   chamada vikshepa (aquela que projeta) o ata com as correntes da   ira, luxúria, etc.

141. O homem de mente perversa, cujo conhecimento do Ser foi   completamente devorado pelo tubarão da ignorância profunda,   pessoalmente imita os diferentes estados do bud-dhi (intelecto),   que é um atributo sobreposto pela ignorância primária e segue   flutuando para cima ou para baixo (nasce e morre, tomando   diferentes corpos, segundo seus desejos bons ou maus), neste   imenso oceano do universo, cheio do veneno dos gozos sensuais; às   vezes se submerge, outras vezes se levanta um pouco (às vezes   perde todo raciocínio, outras vezes o recobra um pouco). Que   destino miserável o do homem néscio!

142. Como as capas de nuvens geradas pelos raios solares, cobrindo o   sol, aparecem sozinhas no céu (como se o sol não existisse), assim   o ego gerado pelo Atman, cobrindo a realidade do Ser, aparece

como a única existência (Mas o ego também desaparece, como as   nuvens quando o sol do Atman aparece).

143. Como em dia nublado, quando o sol fica completamente coberto   por nuvens densas, se levantam ventos gelados que fazem as   pessoas sofrerem, assim quando o Atman permanece oculto pela   profunda ignorância, a terrível força de vikshepa faz o néscio passar   por inumeráveis sofrimentos.

144. A escravidão do homem procede das duas forças (a que cobre e a   que projeta) e enganado por elas, ele confunde o corpo com o Ser e   continua vagando de corpo em corpo.

145. Da árvore do samsara (existência relativa), a ignorância é a   semente; a identificação com o corpo é seu germe; o apego é o   broto; o trabalho (egoísta) é a água da irrigação; o corpo é o   tronco; as forças vitais são os ramos; os órgãos são as folhas   ternas; os objetos dos sentidos são as flores; os sofrimentos que   nascem dos diferentes trabalhos são os frutos e o ser individual é o   pássaro pousado sobre esta árvore.

146. Esta amarra do não-Ser surge por si só da ignorância primária   (não tem outra causa). Diz-se que não tem princípio ou fim (ainda   que desapareça quando se realiza ao Ser). Esta amarra obriga ao   homem a sofrer uma longa série de sofrimentos como o   nascimento, enfermidade, decrepitude, morte, etc.

147. Não se pode destruir esta amarra com armas, ventos, fogo, nem   com milhões de cultos (recomendados pelas escrituras e que se   fazem com finalidades especiais); somente a maravilhosa espada do   conhecimento, nascida do discernimento e afiada pela graça divina,   pode destruí-la.

148. Aquele que é um apaixonado devoto da autoridade dos Vedas   adquire firmeza em seu dever particular, que o conduzirá à   purificação mental e lhe fará realizar ao Ser Supremo.

Somente   assim, a existência relativa e sua raiz (a ignorância primária) serão   destruídas.

149. Como a água de um lago fica coberta pelo musgo que nasce nela,   assim o Ser fica oculto atrás das cinco envolturas, como o   annamaya (o corpo físico), etc., que são produtos de Sua própria   força.

150. Retirando o musgo, aparece ao homem a água perfeitamente   pura, que tira a sede e lhe proporciona alegria imediata.

151. Quando   as   cinco  envolturas  forem  eliminadas  (pelo   discernimento), aparece Aquele Puro, o morador interno, cuja   natureza é a permanência e a bem-aventurança pura e que é   Supremo e luminoso.

152. Para retirar as amarras, o homem culto deve discernir entre o Ser   e o não-Ser.

Somente fazendo isto, chega ele a conhecer a seu Ser   como Existência-Conhecimento-Bem-aventurança Absoluta e se   torna eternamente bem-aventurado.

153. É livre aquele que discerne entre os objetos dos sentidos e o Ser   que não atua, desapegado, o morador interno, e que sabe separar o   Ser de suas envolturas como alguém que tira o talo da erva, e   submergindo tudo no Ser vive identificado com Ele.

154. Este corpo é produto do alimento e é a envoltura material que   vive de alimento e morre quando não o tem; é uma massa de pele,   carne, sangue, ossos e outras coisas sujas.

Este corpo jamais pode   ser o Atman, o qual é sempre puro e auto-existente.

155. Não existe este corpo antes de nascer nem existirá depois da   morte; dura só um período curto.

Suas qualidades são transitórias e   varáveis; é um composto, inerte, um objeto dos sentidos, como   uma jarra.

Como pode ser o Atman, o Testemunha... de todas as   mudanças?

156. O corpo composto de mãos, pernas, etc., não pode ser o Atman,   porque mesmo faltando um de seus membros, o resto do organismo   continua funcionando e o homem pode continuar vivendo.

Como   está subordinado a outros, este corpo não pode ser o Atman, que é   o supremo condutor de todas as coisas.

157. É plenamente evidente que o Atman como a Realidade básica é   distinto do corpo, suas características, atividades e estados.

O   Atman é a testemunha de todos eles.

158. Como pode o corpo que é um montão de ossos coberto pela   carne, cheio de sujeiras e muito impuro, ser o auto-existente   Atman, o Conhecedor, que é sempre diferente dele?

159. O néscio se identifica com esta massa de pele, carne, gordura,   ossos e outras imundices internas, enquanto que o homem que   discerne conhece a seu Atman, o único Real, muito diferente de seu   corpo.

160. O néscio pensa que é o corpo, o erudito se identifica com a   mescla do corpo e o Ser individual, enquanto que o verdadeiro   sábio, cujo conhecimento puro nasceu do discernimento, realiza ao   eterno Atman como seu próprio Ser e tem a convicção: “Sou   Brahman”.

161. Ó néscio, deixe de identificar-se com este conjunto de pele,   carne, gordura, ossos e sujeiras.

Faça-o com Brahman Absoluto, a   Alma de todos, e assim consiga a Paz Suprema.

162. Até que o instruído não renuncie à sua equivocada identificação   com o corpo, os órgãos, etc., que são irreais, não há nenhuma   emancipação mesmo para ele, sendo tão erudito nos textos   vedânticos e morais.

163. Como não te identificas com tua sombra, reflexo de teu corpo,   nem com o corpo de teus sonhos ou de tua imaginação, tampouco   te identifiques com este corpo vivo.

164. Para aqueles que estão apegados à irrealidade, só a identificação   com este corpo é a semente que produz a grande aflição do   nascimento, etc.; por isso, com sumo cuidado extermine-a. Quando   se renuncia a ela não existe mais a possibilidade de renascimento.

165. A envoltura de prana (força vital) está feita do conhecido prana e   os cinco indriyas ou órgãos de ação (os centros do cérebro que   controlam as atividades da fala, as mãos, as pernas, os órgãos de   excreção e reprodução). A envoltura material (feita de comida),   interpenetrada pela envoltura de prana, faz como se tudo fosse   vivo.

166. Tampouco esta envoltura de prana é o Atman, porque é uma   modificação de vayu (ar, força vital) e como o ar, entra no corpo e   sai dele.

Sendo eternamente dependente do Ser, jamais conhece   seu próprio bem ou mal, nem os dos demais.

167. A envoltura mental está composta da mente e dos órgãos de   conhecimento (os centros cerebrais que controlam a audição, a   visão, o olfato, o paladar e o toque). Ela é a causa dos conceitos   diversos como: “eu”, “tu”, “meu”, “teu”, etc.

É poderosa e tem a   faculdade de criar as diferenças de “nome” e “forma”. Se manifesta   interpenetrando a envoltura anterior, a das forças.

168. A envoltura mental é como o fogo do culto; nutre-se dos   inumeráveis desejos, que são como combustíveis; os sacerdotes   são os cinco órgãos dos sentidos.

Este fogo permanece aceso pela   contínua oferenda dos objetos e o resultado deste culto é o universo   fenomenal (a mente projeta o universo objetivo).

169. Fora da mente não há nenhuma ignorância primária.

Ela é a   avidya, a causa da escravidão e do renascimento.

Destruída a   mente, tudo fica destruído; ela manifestada, tudo se manifesta.

170. Nos sonhos não há nenhum contato real com o mundo externo.

É   a mente que cria o mundo do sujeito, objeto e da relação entre   eles.

A mesma coisa acontece quando estamos despertos – não há   nenhuma diferença.

Por isso, tudo (o universo) é uma projeção   mental.

171. É evidente, por experiência universal, que no sono profundo,   quando a mente fica reduzida à seu estado causal, para o individuo   adormecido não existe nada.

Assim, a existência relativa do homem   é simplesmente sua criação mental, não há nenhuma realidade   objetiva.

172. O vento é que traz as nuvens e também as leva.

Assim, ainda que   a mente crie a escravidão do homem, é também a causa de sua   liberação.

173. Primeiro ela cria no homem o apego por seu corpo e por outros   objetos dos sentidos, o que o deixa atado como um animal pela   corda.

Depois a mesma mente cria no indivíduo um forte desgosto   pelos mesmos objetos, faz senti-los como venenos e o libera (no   final) da terrível escravidão.

174. Por isso a mente é a única causa de escravidão ou liberação do   homem.

Quando está manchada pelos efeitos de rajas, a mente   conduz o homem à escravidão e ao purificar-se dos efeitos de rajas   e tamas, leva ao homem à liberação final.

175. Quando pela superioridade do discernimento e da renúncia, a   mente adquire a pureza, se dirige à liberação.

Por isso o inteligente   aspirante da liberação deve antes de tudo fortalecer estas duas   virtudes.

176. Na selva dos prazeres sensórios o terrível tigre chamado ‘mente’   está observando cautelosamente.

Que os homens bons que anelam   a liberação jamais passem por ali.

177. Para aquele que busca experiências, a mente produz   continuamente todos os objetos dos sentidos, sem exceção, sejam   densos ou sutis (percebidos nos estados de vigília ou sono). Ela cria   os distintos corpos, períodos da vida, classes sociais, tribos e   também todas as atividades, qualidades, meios e resultados.

178. Alucinando ao ser individual, que é a Inteligência Pura, não   ligada, e atando-o com as correntes do corpo, órgãos e pranas, a   mente o faz vagar, com as ideias de ‘eu’ e ‘meu’, entre os diversos   prazeres e sofrimentos, que são o resultado de suas próprias ações.

179. A causa da transmigração do homem é o mal da “sobreposição”   (o auto-hipnotismo que o faz esquecer seu estado de Ser). É a   mente que cria esta corrente, de onde procedem todos os   sofrimentos do homem, manchada de rajas e tamas.

180. Por isso, os sábios que se aprofundaram nos segredos (do Ser e   do não-Ser), designaram a mente como avidya ou ignorância.

É ela   que faz mover ao universo de um lado a outro, como nuvens   levadas pelo vento.

181. Por isso, aquele que anela a liberação deve purificar sua mente   com todo esmero.

Uma vez purificada, a liberação é tão fácil de   lograr como a fruta em nossa mão.

182. Aquele que por sua única devoção pela liberação extirpa o apego   aos objetos dos sentidos, renuncia a todas as ações (egoístas) e   com fé em Brahman pratica regularmente o ouvir, etc.

(ouvir a   Verdade dos lábios do Guru, reflexionar e meditar), consegue limpar   a natureza rajásica do intelecto.

183. Tampouco a envoltura mental pode ser o Paramatman (Ser   Supremo), porque ela tem princípio e fim, está sujeita às   modificações, é conhecida pelo sofrimento e é um objeto.

Enquanto   que o Sujeito (o Ser) jamais pode ser identificado pelos objetos.

184. Bud-dhi (a faculdade determinativa) com suas modificações (o   conceito do ‘eu’, etc.) e os órgãos de conhecimento, tendo os   caracteres de um apoderado, forma a envoltura do conhecimento,   que é a causa da transmigração do homem.

185. Esta envoltura do conhecimento, que parece ser inteligente pelo   reflexo do poder de Chit (o Ser), é uma modificação da prakriti, está   dotada da função do conhecimento e sempre se identifica   totalmente com o corpo, os órgãos, etc.

186. -187. Esta envoltura não tem princípio, se caracteriza pela ideia   do ‘eu’, se chama jiva (homem individual) e faz tudo no plano   relativo.

Pelos desejos anteriores (da vida passada), faz o bem e o   mal e experimenta seus resultados.

Tomando distintos corpos em   diversas esferas, vem e vai.

É esta envoltura do conhecimento que   tem os estados de vigília, sono com sonhos e sono profundo, e é ela   que tem as experiências de prazer e dor.

188. Ela sempre se equivoca pensando que são seus os desejos,   funções e atributos dos distintos períodos da vida (estudantil,   familiar, de retiro e renúncia total) que pertencem ao corpo.

Esta   envoltura é muito luminosa por estar próxima ao Ser Supremo.

Pela   identificação com este upadhi (qualificativo), que é a envoltura do   conhecimento, o Ser sofre a transmigração.

189. O auto-luminoso Atman, o Conhecimento Puro, brilha no coração,   entre os pranas.

Ainda que seja imutável, se transforma, pelo   upadhi da envoltura do conhecimento, no apoderado e   experimentador.

190. Ainda que sendo o Ser o único que existe, assumindo as   limitações de bud-dhi e identificando-se erroneamente com esta   entidade totalmente irreal, se considera a si mesmo como algo   diferente (como condicionado, ligado, nascido, etc.), como   consideramos a uma jarra diferente da argila (da qual está feita; a   diferença é só NOME e FORMA).

191. Por sua conexão com os upadhis (as modificações da prakriti, a   existência relativa), o Paramatman, ainda que por natureza seja   perfeito e imutável, assume as qualidades dos upadhis e parece   atuar como eles; igual ao fogo, que não tem forma, assume a forma   da bola de ferro incandescente.

192. -193.     Perguntou o discípulo: Seja pela noção ilusória ou por   qualquer outra causa, o Ser Supremo chegou a considerar-se como   o jiva (ser individual) e este upadhi não tem princípio.

Bem, o que   não tem princípio é considerado como infinito.

Por isso, o estado de   Ser como jiva não terá fim e suas transmigrações continuarão.

Então, ó venerado Guru, como haverá liberação para o Ser? Por   favor, queres me explicar isto?

194. Respondeu o Guru: Fizeste a pergunta justa, ó sábio.

Agora   escuta com atenção.

A imaginação, que foi enfeitiçada pela ilusão,   jamais pode ser aceita como um fato.

195. Salvo por obra da ilusão, não pode haver nenhuma conexão entre   o Ser e o mundo objetivo, porque o Ser é sempre inconexo, sem   forma e está além das atividades; é como no caso do céu, o qual,   ainda que não tenha cor alguma, por erro as pessoas lhe atribuem a   cor azul.

196. O estado como jiva do Atman, ainda que este último seja o   Sakshi, testemunha (do panorama universal), foi produzido pelo   upadhi (sobreposição ilusória) de bud-dhi e não é real nem   permanente.

O Atman está além das atividades e qualidades e é   realizado mui intimamente como Conhecimento e Bem aventurança-   Absoluta.

Como este estado por natureza é irreal, desaparece   quando termina a ilusão.

197. Esse estado continua enquanto existe a ilusão, a qual nasce por   falta de discernimento.

Confunde-se a corda com a serpente   enquanto dura a ilusão, e a serpente desaparece quando tal ilusão   deixa de existir.

198. – 199. Da mesma maneira, avidya e seus efeitos são   considerados como sendo sem começo.

Mas quando nasce vidya   (conhecimento superior), a totalidade dos efeitos de avidya e ela   própria, ainda que sejam sem começo, se desvanecem como as   coisas de um sonho ao despertar.

É evidente que o universo   fenomenal não é eterno ainda que não tenha um princípio definido,   como a pragabhava (prévia inexistência).

(Pragabhava é um conceito da lógica hindu.

Segundo esta escola,   quando dizemos que certo objeto aparece em um momento   definido, presumimos que existia a inexistência de tal objeto antes   de sua aparição.

É óbvio que tal “prévia inexistência” é sem   princípio e que desaparece totalmente com a aparição do objeto.

Assim, avidya (a ignorância primária), ainda que não tenha   princípio, cessa quando nasce o conhecimento superior).

200. – 201. Vimos que o pragabhava, ainda que não tenha um começo   definido, tem seu fim.

Assim, o estado de jiva, que foi imaginado no   Atman por Sua relação com os upadhis (atributos sobrepostos)   como o bud-dhi, não é real; em troca, o Atman é essencialmente   distinto do Ser individual.

A relação entre o Atman e o bud-dhi vem   da ignorância.

(Upadhi, ou atributo sobreposto: Como pela presença de uma flor   vermelha um cristal parece vermelho, assim pela presença de bud-   dhi e outras modificações da prakriti, o Puro Atman parece   condicionado como jiva.

Ou como quando se vê um objeto detrás de   uma cortina, por um furo, ao princípio o vê parcialmente.

Mas   quanto mais aumenta o tamanho do furo, mais claro aparece o   objeto.

Assim com respeito ao Atman, nós temos ideias errôneas.

As mudanças acontecem na prakriti e suas modificações e   pensamos que o que muda é o Ser.

O Atman é sempre livre, os   upadhis o fazem aparecer como condicionado.

Quando nasce o   conhecimento superior desaparecem os upadhis.)

202. O término de tal upadhi ocorre unicamente quando se logra o   Conhecimento Puro e nunca por outros meios.

Segundo os Shrutis   (os Vedas), o Conhecimento Puro consiste na realização de que o   jiva e Brahman são idênticos.

203. Logra-se esta realização pelo perfeito discernimento entre o Ser e   o não-Ser.

Por isso se deve discernir entre o Ser individual e o Ser   Eterno.

204. –205. Como ao tirar o barro da água barrenta, de novo aparece a   água cristalina, assim ao tirar a mancha (upadhi), o Atman se   manifesta em toda a Sua glória.

Quando se desvanece a irrealidade,   este mesmo Ser individual é definitivamente realizado como o Ser   Eterno.

Por isso, se deve resolver firmemente limpar todos os   conceitos de ego, etc., que colocamos sobre o Ser Eterno.

206. Esta envoltura de conhecimento, da qual estamos falando, não   pode ser o Paramatman pelas seguintes razões: está sujeita a   mudanças, é insensível, é limitada, é um objeto dos sentidos e sua   presença não é constante.

Não se pode aceitar a irrealidade como o   Eterno Atman.

207. A envoltura da felicidade é aquela modificação da prakriti que se   manifesta captando o reflexo do Atman, que é Bem-aventurança   Absoluta.

Os atributos dessa envoltura são os distintos graus de   prazer.

Ela se manifesta quando se apresenta diante de nós algum   objeto agradável.

Espontaneamente faz sentir sua presença quando   qualquer afortunado desfruta dos resultados de seus atos   meritórios, os quais proporcionam a todos os seres corpóreos   grande gozo sem maiores esforços.

208. No sono profundo, esta envoltura de felicidade tem sua maior   demonstração, enquanto que se manifesta parcialmente nos   estados de sono com sonhos e vigília, quando se aproxima de nós   algum objeto ou ideia agradável.

209. Tampouco a envoltura da felicidade é o Ser Supremo, porque tem   atributos mutáveis, é uma modificação da prakriti, é o efeito das   boas ações do passado e está aderida às demais envolturas que   (também) são modificações.

210. Quando todas estas cinco envolturas foram eliminadas pelo   raciocínio sobre os ditos védicos (como “Neti, Neti”, “isto não, isto   não”), o que fica como ponto culminante do processo (de   discernimento) é o Sakshi, a Testemunha, o Conhecimento   Absoluto, o Atman.

211. O sábio deve realizar (perceber intimamente) como seu próprio   Ser a este Atman auto-luminoso, que é distinto das cinco   envolturas.

Este Atman é a Testemunha dos três estados (vigília,   sono com sonhos e sono profundo), é o Real, Imutável, Imaculado e   a Bem-aventurança Absoluta.

212. Perguntou o discípulo: Ó Guru! Quando estas cinco envolturas   forem eliminadas, não vejo neste universo nada mais do que o   vazio, a ausência de tudo.

Então, o que é que fica, com o qual o   sábio deve identificar-se?

213. -214. Respondeu o Guru: És um sábio, disseste a verdade.

Vejo   que és hábil em discernir.

Aquilo pelo qual todas essas   modificações, como o (presente) ego, intelecto, etc., e suas   posteriores ausências são percebidas, mas que ninguém chega a   perceber, conheça-O por teu agudíssimo intelecto, como o Atman, o   Conhecedor Supremo.

215. -216. O que é percebido por algum ente, tem a este último como   testemunha.

Mas quando não existe o ente que percebe, não   podemos dizer que houve percepção.

Este Atman é sua própria   testemunha, porque é autoconsciente.

Por isso o Ser individual é o   Supremo Brahman e nenhum outro.

217. Aquele que se manifesta claramente nos estados de vigília, sono   com sonhos e sono profundo, Aquele que é percebido internamente   na mente em distintas formas como uma série de ininterruptas   manifestações do ego, que é (ao mesmo tempo) a testemunha do   “eu”, intelecto, etc., os quais são de distintas formas e   modificações, Aquele que se faz sentir como a Existência-   Conhecimento-Bem-aventurança Absoluta, é o Atman.

Conheça-O   em teu coração como teu próprio Ser.

218. Vendo ao reflexo do sol na água de uma jarra, o néscio o   considera como ao sol mesmo.

Assim, o alucinado tonto se   identifica com o reflexo de Chit (Conhecimento Supremo) captado   no intelecto, que é seu upadhi (modificação da ignorância).

219. -222. Como o sábio afastando-se da jarra, da água e do reflexo,   olha diretamente ao auto-luminoso sol que ilumina aos três e ao   mesmo tempo é independente deles; assim devemos afastar-nos do   corpo, intelecto e do reflexo de Chit e realizar a Testemunha, ao   Atman, ao Conhecimento Absoluto, a causa da manifestação de   tudo, que mora oculto no interior de bud-dhi; se deve realizar ao   Eterno, Onipresente, Todo-penetrante, ao Sutilíssimo, que não tem   nem exterior nem interior, que é idêntico com o verdadeiro “eu”;   realizando esta verdadeira natureza do “eu”, se libera do pecado,   dos defeitos, do pesar e da morte e se converte na figura da Bem-   aventurança Suprema.

Alcançando a emancipação não se teme a   ninguém.

Para o aspirante à Liberação não há nenhum outro meio   de romper a corrente da transmigração que o logro do verdadeiro   conhecimento de seu próprio Ser.

223. A causa da liberação das amarras do samsara (existência relativa)   é a realização da identidade de si mesmo com Brahman e por esse   meio o sábio logra o estado de Brahman, o UM sem segundo, a   Bem-aventurança Absoluta.

224. Uma vez realizado este estado de Brahman, o homem não volta   mais ao reino da transmigração.

Por isso se deve realizar   plenamente a identidade com Brahman.

225. Brahman é a Existência, o Conhecimento, o Absoluto, puro,   supremo, auto-existente, eterno e a Bem-aventurança indivisível.

Aquele não é diferente (em essência) do Ser individual e não tendo   interior nem exterior, reina plenamente.

226. A única realidade é esta Suprema Unidade, porque não existe   nada mais que o Ser.

Em realidade, no estado da realização da   Suprema Verdade, não existe outra entidade independente.

227. Todo este universo, que por ignorância aparece como diversas   formas, não é outra coisa senão Brahman, que é livre de todas as   limitações do pensamento humano.

228. Uma jarra, ainda que seja uma modificação da argila, não é   diferente dela.

Em qualquer parte, a jarra em essência é argila.

Então por que denominá-la jarra? É uma coisa fictícia, é um nome   de fantasia.

229. Ninguém pode demonstrar que a essência da jarra é algo   diferente da argila (da qual é feita). Portanto, a jarra foi imaginada   meramente pela ilusão; seu componente, a argila, é a realidade   básica.

230. Do mesmo modo, o universo inteiro, sendo o efeito do real   Brahman, em essência não é nada mais que Aquele.

A realidade do   universo é Brahman, fora do qual não há outra existência.

Se   alguém diz, “este é” (que o universo tem sua existência particular),   está ainda sob a ilusão e está falando incoerentemente, como   aquele que fala dormindo.

231. Em verdade este universo é Brahman, assim é a augusta   proclamação do Atharva Veda.

Por isso, este universo não é nada   mais que Brahman; qualquer coisa sobreposta não tem outra   existência que seu substrato.

232. Se o universo, como é, fosse real, então jamais terminaria o   elemento dualista, as escrituras seriam falsificadas e o Senhor   mesmo cometeria o delito de mentir.

Nenhuma dessas alternativas

é considerada como desejável ou benéfica pelas pessoas de nobre   mentalidade.

233. O Senhor, que conhece o segredo de tudo, sustentou este ponto   de vista pelos seguintes ditos: “Mas Eu não estou neles”, “nem os   seres estão em Mim”. (A referência a estes ditos se encontra nos   versos 4 e 5 do capítulo IX do Bhagavad-Gita, onde Sri Krishna diz   que a existência de tudo depende de Brahman, que é seu substrato   e ao mesmo tempo Absoluto).

234. Se o universo é real, que se faça sentir também no estado do   sono profundo; mas como não é percebido, certamente deve ser   irreal e falso como os sonhos.

235. Por conseguinte, o universo não existe fora do Ser Supremo e a   percepção de que o universo existe como algo distinto é tão irreal   como as qualidades (o azul do céu, o vermelho do cristal colocado   ao lado de uma flor vermelha, etc.). Por acaso um atributo   sobreposto tem alguma existência distinta de seu substrato? É o   próprio substrato que aparece em forma diferente devido à ilusão.

236. Qualquer que seja a percepção de alguém iludido, o que percebe   é Brahman, nenhuma outra coisa que não seja Brahman.

A prata   não é distinta da madrepérola.

(Se refere à cor prateada que tem a   madrepérola). O que é sempre considerado como o universo é   Brahman; enquanto que o universo, a sobreposição de Brahman, é   apenas um nome.

237. -238. Assim é que qualquer coisa que se manifeste, este   universo, por exemplo, é o próprio Supremo Brahman, o Real, o UM   sem segundo, o Puro, a Substância do Conhecimento, o Imaculado,   o Pacífico, sem princípio, Eterno, além da atividade e essência da   Bem-aventurança     Absoluta.

Aquele   transcende    todas   as   diversidades criadas por maya, é Eterno, sempre está além do   alcance do sofrimento, indivisível, incomensurável, sem forma,   homogêneo, sem nome, imutável e auto-luminoso.

239. Os sábios realizam intimamente a Verdade Suprema, a Brahman,   no qual não há distinção entre conhecedor, o ato de conhecer e o   cognoscível, ao infinito transcendental e a Essência do   Conhecimento Absoluto.

240. O que não pode ser abandonado nem recolhido (como qualquer   objeto), que está fora do alcance da mente e da palavra, ilimitado,   sem princípio e sem fim, o Todo, é o Ser de si mesmo e cuja glória   ninguém pode ultrapassar.

241. -242. Quando o Shruti (os Vedas), pela afirmação “Tat Tvam Asi”   (Tu és Aquele), estabelece repetidas vezes a identidade de Brahman   e o jiva, o faz despojando estes termos de suas associações   relativas, somente para inculcar a identidade dos dois em seu   estado puro; pelo contrário, Aquele (como Ishvara, o Todo-   poderoso) e tu (como jiva, o ser individual) são atributos tão   distintos como o sol e o vaga-lume, o rei e o criado, o oceano e o   poço de água e o monte Meru e o átomo.

243. A diferença entre eles (Brahman e jiva) foi criada pelos atributos   ilusórios (upadhi) que não são reais.

O upadhi (atributo) de Ishvara   (o Senhor) é maya, a causa de Mahat (a inteligência cósmica) e os   demais (as modificações que procedem de Mahat) e tu deves saber   que o upadhi do jiva são as cinco envolturas.

244. Estes são dois respectivos upadhis de Ishvara e o jiva e quando   eles são eliminados perfeitamente não haverá Ishvara nem jiva   (para o aspirante monista). O reino é o símbolo do rei e o escudo o   do soldado, mas quando são tirados não haverá nem rei nem   soldado.

245. Ao dizer: “Este, pois, é o mandamento, etc.”, os Vedas repudiam   diretamente a dualidade imaginada em Brahman.

Devem-se   eliminar estes dois upadhis (sobreposições que criam em nossa   mente os conceitos de Ishvara e jiva), pela realização íntima (da   Suprema Verdade) sustentada pela autoridade védica.

246. Nem o mundo sutil, nem este mundo denso é o Atman.

Como   foram imaginados, são irreais como os sonhos ou como a serpente   vista na corda.

Assim, primeiro se deve eliminar totalmente a ideia   do universo objetivo e em seguida realizar a verdadeira identidade   básica de Ishvara e jiva.

247. Por isso, os dois termos (Ishvara e jiva) devem ser bem   considerados com relação aos seus significados implícitos, para que   se possa estabelecer sua absoluta identidade.

Nenhum dos métodos   (lógicos) de recusa ou aceitação total nos servirá (para a   compreensão). Deve-se raciocinar pelo método que combina os dois   (recusa ou aceitação parcial).

(No sistema da lógica hindu existem três tipos de analogias: yahati,   ayahati e bhaga.

Na primeira, um dos termos da frase perde seu   significado original.

Por exemplo, quando se diz: “Os leiteiros do   Gangá”, a frase não significa que os leiteiros vivem dentro do rio   Gangá, mas que vivem as margens deste rio.

Na segunda, ainda   que se mantenha o significado original, se agrega algo mais.

Por   exemplo, quando se diz “Corre o branco”, se deve entender que

“corre o cavalo branco”. Aqui o “cavalo” foi agregado.

Na terceira   analogia, cada termo da frase deve deixar parte de seu significado.

Para compreender isto, leremos os próximos capítulos).

248. -249. Por exemplo, na frase: “Este é Devadatta” (o mesmo   homem a quem conhecemos antes) se fala da identidade da pessoa,   eliminando as partes contraditórias (as diferenças de tempo, lugar,   etc.). Do mesmo modo, considerando a frase “Tu és Aquele”, o   sábio deve abandonar os elementos contraditórios de ambas as   partes e reconhecer a identidade de Ishvara (o Senhor) e jiva (o ser   individual), notando cuidadosamente que a essência dos dois é Chit,   o Conhecimento Absoluto.

Assim, centenas das declarações das   escrituras inculcam a identidade e a unidade do jiva e Brahman.

250. Pela eliminação do não-Ser, à luz das passagens como: “Isto não   é denso, nem sutil”, etc.(se realiza intimamente o Atman) que está   estabelecido por Si mesmo, que é inconexo como o céu e está além   de todas as categorias do pensamento.

De modo que, desfaz este   mero fantasma do corpo que percebes e que aceitaste como teu   próprio Ser.

Por meio da compreensão pura de que tu és Brahman,   realiza o teu próprio Ser, ao Conhecimento Puro.

251. Todas as modificações da argila, como a jarra, etc., que têm sido   aceitas pela mente como reais, não são (na realidade) nada mais   que argila.

Do mesmo modo, o universo inteiro, que tem sua origem   em Brahman, é o próprio Brahman e nada mais que Aquele.

Não   havendo outra existência que Brahman e sendo Aquele a única   auto-existente Realidade, aquele é nosso verdadeiro Ser.

Por isso,   tu és aquele Pacífico, Puro, Supremo Brahman, o UM sem segundo.

252. Assim como o lugar, o tempo, os objetos, aquele que percebe,   etc., que surgem durante o sonho são irreais, assim é este mundo   cuja experiência temos no estado de vigília, porque tudo é efeito de   nossa própria ignorância; da mesma maneira este corpo, os órgãos,   os pranas, o ego, etc., são também irreais.

Por isso, tu és aquele   Pacífico, Puro, Supremo Brahman, o UM sem segundo.

253. O que se supõe erroneamente existindo em algo, quando sua   verdade é conhecida, resulta ser nada mais que o substrato e nada   diferente dele.

Este mundo variado de sonho vem e se vai como o   próprio sonho.

Ao despertarmos, por acaso aparece como sendo   algo diferente do que o Ser de si mesmo?

254. O que está além dos conceitos de casta, credo, família e   linhagem; o que está desprovido de nome, forma, mérito e   demérito; o que transcende o espaço, o tempo e os objetos dos   sentidos – Aquele Brahman tu és. Medita sobre isto profundamente.

255. Aquele Supremo Brahman que está além do alcance da palavra,   mas que é acessível ao olho da iluminação pura, que é o puro   conhecimento condensado, a entidade sem princípio, tu és. Medita   sobre isto profundamente.

256. Aquele que não foi tocado pela sêxtupla onda (ilusão, pesar,   fome, sede, decrepitude e morte), que é meditado pelo coração do   yogui, mas não é alcançado pelos órgãos sensórios, ao que o bud-   dhi não pode conhecer e que é impecável - Aquele Brahman tu és.   Medita sobre isto profundamente.

257. Aquele que é o substrato do universo com suas diversas   subdivisões, que são criações da ilusão; Aquele que se baseia sobre   si mesmo, que é diferente do denso e do sutil, que não tem partes e   é incomparável - Aquele Brahman tu és. Medita sobre isto   profundamente.

258. Aquele, o indestrutível, que está livre do nascimento,   crescimento, desenvolvimento, desgaste, enfermidade e morte, que   é a causa da projeção, manutenção e dissolução do universo -   Aquele Brahman tu és. Medita sobre isto profundamente.

259. Aquele que está livre de diferenciação, cuja essência jamais é   inexistente, que é imóvel como o oceano sem ondas, o sempre-livre   e de forma indivisível - Aquele Brahman tu és. Medita sobre isto   profundamente.

260. Aquele que apesar de ser o Único, é a causa dos muitos e anula   as demais causas, mas para si mesmo não tem causa, Aquele que é   independente e distinto de Maya e seu efeito, o universo - Aquele   Brahman tu és. Medita sobre isto profundamente.

261. Aquele que é livre de dualidade, infinito, imutável, diferente do   universo e de Maya, Aquele é Supremo, eterno, Bem-aventurança   invariável e imaculado - Aquele Brahman tu és. Medita sobre isto   profundamente.

262. Aquela realidade, ainda que seja única, aparece como múltipla   pela ilusão, tomando distintos nomes, formas, atributos e   modificações, mas se mantém sempre idêntica como o ouro nas   jóias - Aquele Brahman tu és. Medita sobre isto profundamente.

263. Aquele, além do qual nada existe, que brilha mesmo sobre Maya,   que por sua vez é superior ao universo, seu efeito; Aquele é o mais   íntimo Ser de todos e é livre de diferenciação; Aquele, o Ser Real, a   Existência-Conhecimento-Bem-aventurança Absoluta, o Infinito, o   Imutável, é Brahman que tu és. Medita sobre isto profundamente.

264. Sobre esta suprema Verdade que já enfatizamos, se deve meditar   profundamente pelo intelecto seguindo os raciocínios recomendados   (pelos Vedas). Por esse método se realizará intimamente a   Suprema Verdade sem nenhuma dúvida, como água na palma da   mão.

265. Realizando intimamente neste corpo ao Conhecimento Absoluto,   livre da ignorância primária e de seus efeitos, como se conhece ao   rei no meio dos soldados, e estando permanentemente estabelecido   sobre seu próprio Ser e baseando-se sobre tal Conhecimento,   submerge ao universo em Brahman.

266. Na caverna do bud-dhi (na profundidade do intelecto) existe   Brahman, diferente do denso e do sutil.

Aquele é a Existência   Absoluta, é o Supremo, o Um sem um segundo.

Aquele que vive   como Brahman em tal caverna, ó querido, não entra mais no ventre   da mãe.

267. Mesmo depois que a Verdade foi realizada intimamente, perdura   esta forte e obstinada impressão, sem princípio, de que se é ator e   experimentador.

Essa impressão é a causa do renascimento.

Devemos arrancá-la com muito cuidado vivendo constantemente   identificados com Brahman.

Os sábios chamam de mukti (liberação)   a rápida atenuação dos desejos nesta vida.

268. Identificando-se com o Atman, o sábio deve terminar com a ideia   ilusória do “eu” e “meu” com relação ao corpo, órgãos, etc., que são   manifestações do não-Ser.

269. Realizando ao teu mais íntimo Ser, a testemunha do bud-dhi e   suas modificações e cultivando constantemente o pensamento   positivo “Sou Aquele”, vença essa identificação com o não-Ser.

270. Deixando de observar as formalidades sociais, abandonando as   ideias do físico e evitando o demasiado entretenimento com as   escrituras, aniquila essa sobreposição da ignorância que te ocorreu.

271. Devido ao desejo de conquistar o elogio da sociedade, ao   apaixonado entretenimento com as escrituras e a dedicação à   comodidade do corpo, as pessoas não logram a verdadeira   realização.

272. Os sábios designaram aos mencionados desejos como correntes   de ferro, com que estão atados os pés daquele que busca a   libertação da prisão mundana.

Aquele que é livre delas, realmente   logra a liberação.

273. Esfregando-se, é retirado o estranho e hediondo odor da casca   molhada e se manifesta o delicado perfume do agarú.

274. Quando a mente que está coberta pela sujeira de virulentos e   intermináveis desejos, se purifica pelo constante toque com o   Conhecimento, se percebe claramente, o perfume do Ser Supremo,   igual ao que acontece com a fragrância do sândalo e do agarú.

275. O desejo da realização íntima do Atman está obscurecido pelos   inumeráveis desejos das coisas que são do não-Ser e quando estes   são destruídos pela constante adesão ao Ser, o Atman se manifesta   por si só.

276. Quanto mais a mente vai se estabelecendo no Ser íntimo, tanto   mais se desliga dos objetos externos e quando são eliminados todos   estes desejos, sobrevém a plena realização do Atman sem nenhum   obstáculo.

277. Estando constantemente estabelecida no Atman, morre a mente   do yogui; em seguida cessam por completo os desejos.

Assim que   termine com suas ilusões.

278. Tamas é destruído por rajas e sattva; rajas é destruído por sattva   e este último quando se purifica desaparece por si só. Por isso, com   a ajuda de sattva termine com suas ilusões.

279. Sabendo com segurança que o prarabdha karma (a parte do   resultado das ações e pensamentos na vida passada que causou   esta vida) manterá este corpo, permaneça quieto e com   determinação termine com suas ilusões.

280. Repetindo constantemente o pensamento: “Não sou o jiva, sou o   Supremo Brahman” elimine tudo que é o não-Ser e assim termine   com suas ilusões que lhe chegaram pelos seus desejos passados.

281. Realizando intimamente por sua fé nos Shrutis, pelo   discernimento e por seu próprio conhecimento, que seu Ser é o Ser   de todos, termine com suas ilusões até a sua mais remota   aparência.

282. O sábio não tem conexão com nenhuma classe de ação porque se   livrou dos conceitos de aceitar e rechaçar.

Por isso, mediante a   constante dedicação à Brahman, termine com suas ilusões.

283. Termine com suas ilusões para fortificar sua identificação com   Brahman, realizando a identidade de jiva e Brahman como   resultado da prática de: “Tu és Aquele” e outros grandes ditos dos   Vedas.

284. Com perseverança e concentração arranca até a raiz a sua ilusão   de identificar-se com o corpo.

285. Ó sábio, enquanto permaneça a mais leve percepção de   multiplicidade do universo e ainda que os seres individuais sejam   como figuras de um sonho, trabalhe incessantemente para terminar   com suas ilusões.

286. Reflexione sobre o Atman, sem dar a mínima oportunidade ao   esquecimento causado pelo sonho e a preocupação por assuntos   mundanos ou objetos sensórios.

287. Mantendo-te afastado, como se faz com uma pessoa muito suja,   deste corpo feito de carne e outras impurezas e que nasceu dos   pais, converta-se em Brahman e assim realize o mais elevado ideal   de sua vida.

288. Como se une o espaço dentro da jarra (rompendo-a) com o   espaço infinito, assim unindo ao jiva com Brahman pela meditação   sobre a identidade de ambos, ó sábio, mantenha-se em silêncio.

289. Convertendo-se naquela Realidade, o auto-efulgente Brahman, o   substrato de todo fenômeno, abandona ao microcosmo e ao   macrocosmo como dois receptáculos impuros.

290. Transferindo sua atual arraigada identificação com o corpo, ao   Atman que é Existência – Conhecimento - Bem-aventurança   Absoluta e emancipando-se do corpo sutil, seja sempre   independente.

291. Aquele no qual o universo se reflete como uma cidade no espelho,   aquele Brahman tu és; conhecendo isto ficarás plenamente   satisfeito.

292. Alcançando Aquele que é Real e sua própria essência primaria,   aquele Conhecimento e Bem-aventurança Absoluta, o UM sem um   segundo, que não tem forma nem atividade, deves deixar tua   identificação com os ilusórios corpos (denso, sutil e causal) como o   ator que (depois da representação) deixa sua máscara.

293. Este universo objetivo é absolutamente irreal; também é irreal   este ego por sua natureza mutável.

Por isso como pode pertencer a   este ego mutante e suas associações a percepção de “sei tudo”? (Se   refere à fé inerente do homem de que o Ser é Onissapiente).

294. O verdadeiro “Eu” é aquele que é testemunha do ego e dos   demais.

Ele existe sempre (como testemunha de toda experiência)   mesmo no estado de sono profundo.

Os mesmos Vedas declaram:   “É sem nascimento, eterno, etc.” Por isso Paramatman é diferente   dos corpos densos e sutis.

295. É óbvio que o conhecedor de todas as variações dos objetos   transitórios é eterno e imutável.

Sempre se nota bem claramente na   imaginação, sonho e sono profundo, que os corpos densos e sutis   são irreais.

(O corpo denso não é percebido nos estados de sonho e   sono profundo e o corpo sutil tampouco é percebido no sono   profundo).

296. Assim que, renuncia à identificação com este montão de carne, o   corpo denso e também com o ego e o corpo sutil, porque ambos são   produto da imaginação do intelecto.

Realizando intimamente ao teu   próprio Ser que é o Conhecimento Absoluto e ao que não se pode   negar no passado, presente e futuro (porque é onipresente),   alcance a Paz.

297. Deixe de identificar-se com a família, linhagem, nome, forma,   períodos de vida (estudantil, chefe de família, etc.) porque tudo isto   pertence ao corpo que é como um cadáver putrefato (para o   Conhecedor). Igualmente abandone as ideias de que tu és o ator,   etc., que são atributos do corpo sutil e converta-se na essência da   Bem-aventurança Absoluta.

298. Também se nota que existem outros obstáculos (os desejos, etc.)   que causam a transmigração.

A raiz de tudo é o ego, a primeira   modificação da ignorância.

299. Enquanto se tem alguma relação com este ego malvado, não há   para ele nem a palavra mukti ou liberação, que é algo único.

300. Libertando-se das garras do egoísmo, o homem realiza sua   verdadeira natureza, como a eclipsada lua quando sai de Rahu, o   demônio.

Então se torna puro, infinito, eternamente bem-   aventurado e auto-luminoso.

(A mitologia hindu, em uma maneira popular, diz que as eclipses do   sol e da lua acontecem quando o demônio Rahu os ataca   periodicamente, por haver-lhe privado de beber o néctar que o faria   imortal.)

301. Quando se destrói totalmente o egoísmo criado por bud-dhi,   muito iludido pela ignorância primária e ao qual se percebe no corpo   como “Eu sou” (forte, débil, ilustre, etc.), então se alcança a   identidade com Brahman, sem obstrução alguma.

302. O tesouro da bem-aventurança de Brahman está envolto pela   poderosa e mortífera serpente do ego, que o tem bem guardado,   para seu próprio uso por meio de suas três cabeças que são os três   gunas.

Só o sábio que os destrói cortando as três cabeças com a   espada da realização superior, pode gozar deste tesouro que lhe   oferece a beatitude.

303. Enquanto dure o mais leve efeito do veneno, como se pode   esperar a cura total? O egoísmo faz o mesmo com o yogui que   anela a liberação.

304. Pela completa cessação do ego e, como conseqüência desta, a   cessação dos diversos desejos, e por último pelo discernimento   sobre a Realidade interna, se realiza a suprema Verdade como “Sou   Isto”.

305. Imediatamente abandona tua identificação com o ego, o   apoderado, que é uma modificação (da ignorância) e está dotado de   um reflexo do Ser, e que desviando a uma pessoa não lhe permite   que se estabeleça no Atman.

Por esta identificação chegaste a esta   existência relativa cheia de sofrimentos do nascimento, decrepitude   e morte; ainda que tu sejas a Testemunha, a Essência do   Conhecimento e Bem-aventurança Absoluta.

306. Se não tivesses esta identificação com o ego, jamais existiria a   transmigração para ti, que és imutável, eternamente idêntico, o   Conhecimento Absoluto, onipresente, a Bem-aventurança Absoluta   e de glória imaculada.

307. Por isso, destruindo a este egoísmo, seu inimigo, com a espada   do Conhecimento, desfrute direta e livremente da bem-aventurança   de seu império, a majestade do Atman.

Este inimigo é tão maldito   que jamais lhe deu paz alguma, portando-se como uma espinha   cravada na garganta no momento de comer.

308. Detendo as atividades do ego (como “eu” e “meu”) e renunciando   a todo apego pelo logro da Realidade, fique livre de toda dualidade   e desfrute da beatitude do Ser repousando em Brahman, porque   realizaste definitivamente tua natureza infinita.

309. Mesmo quando permanece desarraigado, se o recordamos por um   instante, este terrível ego de novo toma vida e cria centenas de   danos, como uma nuvem trazida pelo vento durante a estação das   chuvas.

310. Ao dominar a este inimigo, o ego, não se deve dar um momento   de trégua pensando em objetos sensórios, que é a verdadeira causa   de sua nova vida, como acontece com a planta de citrus, quase   seca, se a regamos de novo.

311. Só aquele que se identificou com o corpo, deseja os prazeres   sensórios; mas aquele que não tem ideia corpórea, como pode estar   ávido das mesmas coisas? Por isso a causa real de nossa prisão na   transmigração é essa tendência pelos objetos sensórios que fazem   surgir as ideias de diferença e dualidade.

312. -313. Quando se desenvolvem os efeitos (ações com motivos   egoístas) se nota a semente deles (o desejo dos prazeres sensórios)   e quando se destroem os efeitos, se destrói também a semente.

Por   isso se devem dominar os efeitos.

Quando crescem os desejos   crescem os atos egoístas, e daí crescem por sua vez os desejos e   nunca termina a transmigração.

314. Para romper a corrente da transmigração, o monge deve queimar   estes desejos; pois pensar nos objetos sensórios e atuar   egoisticamente, faz crescer os desejos.

315. -316. Aumentados por estes dois, os desejos causam a   transmigração.

No entanto, a maneira de destruir aos três (ação   egoísta, pensar nos objetos sensórios e os desejos) é considerar a   tudo, em todas as circunstâncias, sempre, em todos os lugares e de   todos os modos, como Brahman e somente Brahman.

Pela   fortificação do anelo para unir-se com Brahman estes três ficam   aniquilados.

317. Ao cessar as ações egoístas, se detém o excessivo pensar nos   objetos sensórios, e leva a destruição dos desejos e esta é a   Liberação, que é considerada como jivan-mukti (ser livre ainda   nesta vida).

318. Quando se manifesta claramente o desejo da união com   Brahman, desaparecem os desejos egoístas, como se desvanece   completamente a mais intensa escuridão diante da aurora.

319. Quando sai o sol, não se vê o nevoeiro nem seus efeitos   daninhos.

Igualmente realizando a Bem-aventurança Absoluta, as   amarras não persistem, nem o mais mínimo sinal de sofrimento.

320. Fazendo desaparecer ao mundo externo e interno que   percebemos agora e meditando sobre a Bem-aventurança   condensada, se deve passar o tempo vigiando se ainda existe algum   resíduo do prarabdha (as impressões da vida passada que causaram   esta vida).

321. Jamais se deve descuidar da constância a Brahman.

Sanat   Kumar, filho de Brahma, opinou que a inadvertência é a própria   morte.

322. Não há pior perigo para um jñani (aspirante ao Supremo   Conhecimento) que o descuido de sua própria natureza.

Disso vem   a ilusão, o egoísmo, a escravidão e o sofrimento.

323. Quando um homem, ainda que seja muito instruído, cobiça os   objetos sensórios, o esquecimento o atormenta pelas más   inclinações de bud-dhi como uma mulher leviana a seu amante.

324. Como os musgos que mesmos retirados, não permanecem assim   nem por um instante e de novo voltam a cobrir a água, assim maya   (a ignorância primária) cobre de novo a um sábio se deixa a prática   da meditação sobre o Atman.

325. Se a mente se afasta mesmo que por um só momento do ideal   (Brahman) e se exterioriza, vai mais e mais para baixo, como uma   bola que por descuido se deixa cair do alto da escada, desce   saltando.

326. A mente aderida aos objetos dos sentidos rumina suas qualidades   e quando amadurece tal pensamento, nasce o desejo e em seguida   o homem se dedica a lograr a realização dos desejos.

327. Por isso, para aquele conhecedor de Brahman que pratica o   discernimento, não há pior morte que o descuido da concentração.

O homem concentrado logra o êxito completo.

Assim que, trate com   cuidado de concentrar a mente sobre Brahman.

328. Pelo descuido o homem se desvia de sua verdadeira natureza e   aquele que se desvia cai.

Invariavelmente o homem assim caído se   arruína e rara vez se vê levantar-se de novo.

329. Por isso se deve abandonar o excessivo pensamento sobre os   objetos dos sentidos, que é a raiz de todo o mal.

Só aquele que   durante a vida se mantém afastado (deste tipo de pensamentos)   torna-se completamente livre depois da dissolução do corpo.

(Não   há liberação acidental depois da morte). Declara o Yajur Veda (no   Taittiriya Upanishad) que existe perigo para aquele que vê alguma   diferença, ainda que seja ínfima.

330. Em qualquer momento que um sábio nota a mínima diferença no   infinito Brahman, instantaneamente essa distinção que nasce da   ignorância, se torna para ele fonte de grande perigo.

331. Aquele que se identifica com o universo objetivo que foi negado   (como uma coisa real) pelos Vedas, Smritis (leis e mandamentos   sócio-religiosos) e centenas de raciocínios, experimenta sofrimento

após sofrimento, como um condenado ladrão, porque fez algo que   está proibido.

332. Aquele que está dedicado à busca da Verdade e está livre da   ignorância primária, alcança a eterna gloria do Atman.

Mas aquele   que está dedicado à irrealidade, perece.

Comprova-se isto bem   claramente (como comprovavam antigamente pela prova do fogo   para saber quem era um ladrão).

333. O sannyasin (monge) deve deixar toda a irrealidade que causa   escravidão e deve fixar sempre seus pensamentos sobre o Atman   como: “Eu mesmo sou Este”. Porque a estabilidade em Brahman,   lograda pela identidade com Aquele, causa a Bem-aventurança e   retira por completo o grande pesar nascido de avidya (ignorância),   que se experimenta.

334. Reflexionar sobre objetos externos só intensifica seus frutos,   aumentando as más tendências, que crescem mais e mais.

Conhecendo isto devemos evitar os objetos externos pelo   discernimento e em seguida aplicar-nos constantemente à   meditação de Brahman.

335. Quando o mundo externo é excluído, a mente alcança o   contentamento, o que traz a visão do Paramatman.

A Realização   Suprema rompe a corrente do nascimento e morte.

Por isso, a   exclusão do mundo externo é o primeiro degrau da Liberação.

336. Onde se encontra a um homem que sendo instruído, sabendo   discernir entre o Real e o irreal, crendo na autoridade védica, tendo   seus olhos postos no Atman, a Suprema Realidade e sendo um   aspirante à Liberação, conscientemente recorre como uma criança   (néscio) à irrealidade que causará sua ruína?

337. Não há liberação para aquele que tem apego ao corpo, etc.

E o   livre não se identifica com o corpo e o resto.

Aquele que dorme não   está desperto, o desperto não está dormindo, porque os dois   estados são opostos.

338. Livre é aquele que conhece intimamente que o Ser está em todos   os objetos, fixos e móveis, e considerando ao Ser como o substrato   de tudo, renuncia a todas as sobreposições (objetos e ideias irreais)   e permanece como o Ser, infinito e absoluto.

339. O método de desfazer a escravidão é sentir-se intimamente unido   com o Ser do Universo.

Não existe nada superior a identificação   com o universo inteiro.

Realiza-se este estado pela exclusão do   mundo objetivo e pela firmeza no eterno Atman.

340. Como é possível que possa excluir ao mundo objetivo aquele que   está identificado com o corpo, cuja mente está aderida à percepção   dos objetos externos e que atua de vários modos para este fim? A   prática de excluir ao mundo deve ser cuidadosamente levada pelos   sábios que renunciaram a todo tipo de deveres (sociais), ações   (egoístas) e objetos (sensórios) e que estão dedicados   apaixonadamente ao eterno Atman e que anelam serem donos da   Bem-aventurança Imortal.

341. Ao monge que ouviu (devidamente sobre a Suprema Verdade dos   lábios do Guru) os Vedas com as seguintes palavras: “Calmo,   controlado, etc.”, lhe aconselham a prática de samadhi   (concentração profunda) para realizar intimamente que o universo é   seu próprio Ser.

342. Só aqueles que lograram a Suprema Paz pelo Nirvikalpa Samadhi,   (em que se realiza a união completa com o Supremo Ser) podem   destruir ao ego fortalecido.

Os eruditos (por conhecimentos   livrescos) não logram fazê-lo. Realmente os desejos são efeitos de   numerosas vidas (anteriores).

343. O poder de projeção com a ajuda do poder envolvente conecta ao   homem com a sereia da ideia de egoísmo e o distrai com seus   atributos (as ideias “sou o ator, etc.”).

344. É sumamente difícil vencer ao poder de projeção até que o poder   envolvente não seja desenraizado por completo.

Este último véu   desaparece naturalmente quando o sujeito se distingue claramente   dos objetos, como o leite da água.

Sem dúvida a vitória é completa   e sem obstáculos quando a mente já não oscila diante dos irreais   objetos dos sentidos.

345. O discernimento perfeito logrado pela realização direta (o   Supremo Conhecimento) faz distinguir a verdadeira natureza do   sujeito da natureza do objeto e rompe a corrente da ilusão criada   por maya.

Então, para o livre não há mais transmigração.

346. O fogo do conhecimento (que nasce) da identidade de jiva e   Brahman consome integralmente o impenetrável bosque de avidya   (ignorância primária). Então como pode existir a semente da futura   transmigração para aquele que realizou o estado de advaita (não-   dualidade)?

347. O véu que oculta a Suprema Verdade, só desaparece quando se   realiza plenamente a Realidade.

Depois ocorre a destruição do   conhecimento falso e cessa o sofrimento causado pela influência da   distração.

348. Quando se conhece a verdadeira natureza da corda (quando   desapareceu a serpente irreal sobreposta pela escuridão) se   observam esses três (a desaparição do véu da ignorância, a   destruição do conhecimento falso e a cessação do sofrimento). Por   isso para romper a corrente da escravidão, o sábio deve conhecer a   natureza real dos objetos.

349. -350. Como o ferro pelo contato com o fogo se mostra candente    e chispante, assim bud-dhi pela inerência de Brahman se manifesta    como o conhecedor e o objeto conhecido.

Como estes dois, os    efeitos de bud-dhi são observados como irreais, nos casos de    ilusão, sonho e imaginação, assim as modificações de prakriti    desde o ego até o corpo e os objetos sensórios são igualmente    irreais.

A irrealidade de todos eles provém de sua natureza    mutante.

O Atman jamais muda.

351. A natureza do Paramatman é sempre eterna, conhecimento    indivisível, o UM sem segundo, a Testemunha de bud-dhi e dos    demais.

Ele é distinto do denso e do sutil, Ele é o que realmente    significa o termo e a ideia de “eu” e é a figura interna condensada    de Anandam (a Bem-aventurança Eterna).

352. Discernindo assim ao Real e o irreal e determinando a Verdade    (da identidade de jiva e Brahman) pelo olho do conhecimento    superior e realizando intimamente ao seu próprio Ser, que é o    Conhecimento Absoluto, o sábio se libera dos obstáculos e    diretamente logra a Paz.

353. Quando pelo Nirvikalpa Samadhi (a abstração suprema) o Ser    individual se une definitivamente com o Ser Supremo, se destrói    totalmente o nó da ignorância do coração.

354. Pelos defeitos de bud-dhi surgem as figuras imaginárias como    “eu”, “tu”, “outro”. Mas quando o Paramatman, o Absoluto, o UM    sem segundo, se manifesta em samadhi, então todas aquelas    imaginações do homem se desvanecem pela realização da verdade    de Brahman.

355. Tranqüilo, controlado, definitivamente retirado do mundo    sensório, abstinente e dedicado à prática de samadhi, o sannyasin    (monge) sempre considera a seu próprio Ser como o Ser do    universo, e destruindo por esse meio completamente todas as    imaginações causadas pela escuridão da ignorância primária, o    monge vive bem-aventurado como Brahman, livre de ações    (egoístas) e variações mentais.

356. Só estão livres da escravidão da transmigração aqueles que    alcançando o samadhi, submergiram ao mundo objetivo, os órgãos    sensórios, a mente e até seu próprio ego no Atman, o    Conhecimento Absoluto.

Mas jamais aqueles que falam muito sobre    seus conhecimentos secundários.

357. Pela diversidade dos upadhis (qualidades sobrepostas pela    ignorância primária) o homem se considera cheio de diversidades,    mas quando se libera delas, encontra que sempre foi o Ser    imutável.

Por isso o sábio deve dedicar-se à prática de Nirvikalpa    Samadhi, para desfazer os upadhis.

358. Por sua firme dedicação, o homem adicto ao Real se transforma    no Real, de mesma forma que a barata pensando continuamente    no bhramarakita (um inseto), se converte nele.

(Assim é a crença    popular).

359. Como a barata, que deixando as demais atividades quando pensa    assiduamente no bhramarakita, se transforma nesse inseto,    exatamente da mesma maneira, meditando sobre a verdade do    Paramatman, pela influência de sua dedicação única, o yogui logra    este estado supremo.

360. A verdade do Paramatman é extremamente sutil e não pode ser    alcançada pela mente densa e com tendência a exteriorizar-se.    Essa verdade só é alcançada por aquelas almas nobres cuja mente    está purificada pela prática do samadhi, que se logra quando o    estado mental se torna muito fino.

361. Como o ouro ao ser aquecido deixa suas impurezas e recobra seu    brilho original, assim também pela meditação profunda a mente    deixa suas impurezas de sattva, rajas e tamas e alcança a    realidade de Brahman.

362. Quando a mente assim purificada pela constante prática se    submerge definitivamente em Brahman, o Samadhi (a abstração    profunda) se transforma de Savikalpa (parcial) em Nirvikalpa    (total) e diretamente conduz à Bem-aventurança de Brahman, o    UM sem segundo.

363. Por este último Samadhi se destroem todos os desejos que são    como os nós na corda (com que o homem está atado), todo    trabalho chega a seu fim e ocorre sempre a espontânea    manifestação do Ser de si mesmo, em todas as partes, interna e    externamente.

364. Como eficaz, a reflexão deve ser considerada cem vezes superior    ao ouvir (as fórmulas sagradas dos lábios do Guru) e a meditação    é cem mil vezes superior à reflexão.

Mas o Nirvikalpa Samadhi é    simplesmente infinito em sua eficácia.

365. Pelo Nirvikalpa Samadhi, a Verdade de Brahman é clara e    definitivamente realizada; nunca por outro meio ou estado, porque    a mente, cuja natureza é instável, tende a mesclar-se com outras    percepções.

366. Assim, com calma mental e sentidos controlados, sempre    submerge-te no Paramatman que está em teu interior e pela    realização de tua identidade com Brahman destrua a escuridão    criada pela ignorância primária, que não tem princípio.

367. A primeira porta do yoga está feita do controle da fala, não    aceitação de dádivas (supérfluas, limitando-as ao pedido da    comida diária), viver sem esperar, livre de ações egoístas e sempre    em lugares retirados.

368. A vida em um lugar solitário ajuda a controlar os órgãos    sensórios; esse controle por sua vez ajuda a dominar a mente;    logrado isto o ego é destruído, o que dá ao yogui uma ininterrupta    realização da bem-aventurança de Brahman.

Por conseguinte o    muni (o homem meditativo) sempre deve esforçar-se para    controlar a mente.

369. Detenha a fala (e aos outros órgãos sensórios) na mente (não    permitas que as ondas mentais atuem sobre os centros dos    órgãos). Detenha a mente no bud-dhi, a esse ante sua testemunha    e a esta última no infinito Ser Absoluto e alcance a Paz Suprema.

370. O yogui se transforma segundo sua associação com qualquer    dos seguintes upadhis (qualidades sobrepostas): o corpo, os    pranas, os órgãos, a mente, bud-dhi e os demais.

371. Quando isso está detido, se vê ao muni facilmente desapegado    de tudo e desfrutando plenamente da bem-aventurança    permanente.

372. O desapegado é capaz de renunciar interna e externamente, já    que pelo anelo de ser livre abandona seus apegos internos e    externos.

373. Só o desapegado que está firmemente estabelecido em Brahman,    pode renunciar seus apegos externos aos objetos dos sentidos e os    apegos internos ao ego (as modificações mentais).

374. Conhece, ó sábio, que para o homem o desapego e o    discernimento são como as duas asas para um pássaro.

São    necessárias as duas; ninguém pode chegar com uma só delas na    pequena planta da liberação final que está em cima de um edifício.

375. Só o homem de extremo desapego logra o Samadhi e só o    homem de Samadhi se estabelece no Supremo Conhecimento.

Só    o homem que realizou a Verdade é livre e só o livre tem    experiência da Bem-aventurança Eterna.

376. Para o homem de autocontrole não vejo melhor meio de bem-    aventurança suprema que o desapego e se este fica unido com a    elevada realização do Ser, conduz o homem à soberania da    independência absoluta; e como esta última é a porta para    alcançar a belíssima donzela da liberação perpétua, seja    desapegado interna e externamente e sempre fixe tua mente no    Ser Eterno.

377. Corte seu veemente desejo dos objetos dos sentidos, que são    como veneno e são as verdadeiras imagens da morte, e    renunciando ao seu orgulho de casta, família e ordem de vida    (como estudante, chefe de família, retirado e monge) jogue longe    as ações (egoístas). Renuncie à sua identidade com os objetos    irreais como o corpo e os demais e afirme sua mente no Atman,    porque realmente tu és a Testemunha, Brahman, livre da corrente    mental, o UM sem segundo e o Supremo.

378. Fixando firmemente sua mente no Ideal, Brahman, e detendo os    órgãos externos em seus respectivos centros, com o corpo imóvel,    sem a menor preocupação de mantê-lo e logrando a completa    identidade com Brahman, sempre e ininterruptamente bebe em    seu próprio Ser a Bem-aventurança de Brahman.

Que necessidade    há de outras coisas completamente vazias?

379. Renunciando ao pensamento sobre o não-Ser que é mau e    origem do sofrimento, pensa no Atman, a Bem-aventurança    Absoluta, a causa da liberação.

380. Este Atman, auto-refulgente, a testemunha de todos, que mora    no bud-dhi, brilha eternamente.

Toma como teu Ideal a este    Atman, que é diferente de todo o irreal, e excluindo os demais    conceitos, medita sobre Ele, como teu próprio Ser.

381. Reflexionando continuamente sobre este Atman, sem a menor    intervenção de ideias estranhas, se deve realizá-Lo como sendo o    seu próprio Ser.

382. Fortalecendo a identidade com Este (o Ser) e abandonando    aquilo (o não-Ser), o ego e o resto, se deve viver sem    preocupação, considerando a todo o não-Ser, insignificante como    uma vasilha quebrada ou algo parecido.

383. Concentrando a mente purificada no Ser, a Testemunha, o    Conhecimento Absoluto, e aquietando-a pouco a pouco, se deve    realizar intimamente ao infinito Ser em cada um.

384. Deve-se considerar ao Atman como o indivisível, o infinito, isento    de todas as modificações limitadoras como o corpo, os órgãos, os    pranas, a mente e o ego que são criações da ignorância de cada    um.

385. O céu (o espaço) é sempre livre das centenas de objetos    limitadores, como a jarra, o cântaro, a vasilha para grãos, a    agulha, etc., e sempre é um só. Exatamente da mesma maneira o    Puro Atman é UM, quando está livre do ego e dos demais.

386. São simplesmente irreais os objetos limitadores (do Ser Eterno)    desde Brahmá (o criador) até a pequena erva.

Por isso se deve    considerar que o ser individual está sempre unido com o Ser    Infinito.

387. Aquilo no qual, por ilusão, parece existir algo distinto, para    aquele que discerne sempre mantém sua realidade, jamais muda    em outra coisa diferente.

Quando desaparece a ilusão, com ela    desaparece a serpente ilusória e reaparece a realidade da corda.

Assim o (aparente) universo na realidade é Atman.

388. O Ser é (aparece como) Brahmá, Vishnú, Indra, Shiva e o    universo.

Nada existe que não seja Ele.

389. O Ser está dentro e fora, o Ser está adiante e atrás, o Ser está    ao sul e ao norte, também o Ser está acima e abaixo.

390. Como a onda, a espuma, o redemoinho, a bolha, etc., são todos    em essência água, assim Chit (Conhecimento Absoluto) é tudo isto,    desde o corpo até o ego.

Na realidade tudo é Chit, puro e    homogêneo.

391. Todo este universo conhecido pela fala e a mente, não é outra    coisa senão Brahman; não há nada que não seja Brahman, que    exista além do último limite da prakriti.

Por acaso este cântaro, a    jarra, etc., são diferentes da argila da qual foram feitas? (A    diferença existe só no nome e na forma). É o homem alucinado e    embriagado de maya que fala de “tu” e “eu”.

392. O Shruti (Chandogya Upanishad VIII-24-1) na passagem: “Onde    não se vê nada distinto, etc.” (Não ouve nada distinto, não    conhece nada distinto, Aquilo é o infinito) declara por muitos    verbos a ausência da dualidade para quitar as irreais superposições

(das diferenças entre o conhecedor, o conhecimento e o objeto a    conhecer).

393. O Supremo Brahman é como o espaço, puro, absoluto, imóvel,    imutável, sem exterior nem interior, a única existência sem    segundo e o Ser de si mesmo.

Por acaso existe outro objeto de    conhecimento (que não seja Brahman? Brahman é ao mesmo    tempo sujeito e objeto).

394. Que mais há para dizer sobre este tema? O jiva não é distinto de    Brahman, este vasto universo é Brahman mesmo.

Os Vedas    inculcam que Brahman é sem segundo e também é um fato    indubitável que as pessoas de mente elevada que conhecem sua    identidade com Brahman, que renunciaram ao seu contacto com o    mundo objetivo e vivem definitivamente unidos com Brahman,    tornam-se Eterno Conhecimento e Bem-aventurança.

395. Destrua todas as esperanças que o ego levanta neste corpo    denso e sujo; faz o mesmo, com maior força, com o corpo sutil,    que é leve como o ar. Realizando intimamente a personificação da    Bem-aventurança Eterna, como teu próprio Ser, cuja glória    proclamam as escrituras, viva como Brahman mesmo.

396. Enquanto o homem adore este corpo cadavérico, será impuro e    sofrerá por causa de seus inimigos e também pelo nascimento,    enfermidade e morte.

Mas quando pense de si mesmo como sendo    tão puro como a essência do bem e imóvel, com segurança se    libertará do corpo e dos demais.

Também os Vedas afirmam o    mesmo.

397. Pela eliminação de todas as existências aparentes sobrepostas ao    Ser (como o ego, a mente, etc.), o supremo Brahman, o Infinito, o    UM sem segundo e não-agente, permanece em Si mesmo (em sua    própria essência).

398. Quando as funções mentais são submersas (pelo Nirvikalpa    Samadhi) no Paramatman, Brahman, o Absoluto, não se vê nada    deste mundo fenomenal, tudo fica reduzido a meras conversas    (nos lábios dos ignorantes).

399. Conceber que o universo é a única entidade (Brahman) é como    fazer permanente a sua inexistência.

Como é possível que exista    alguma diversidade Naquilo que é imutável, sem forma e Absoluto?

400. Como pode existir alguma diversidade na única entidade    desprovida dos conceitos de alguém que vê, o ato de ver e o    objeto da visão, quando Aquela é imutável, sem forma e Absoluta?

401. Como pode existir alguma diversidade na única entidade que é    invariável, sem forma e absoluta e é perfeitamente plena e imóvel    como o oceano depois da dissolução do universo?

402. Como pode existir alguma diversidade aonde a raiz da ilusão (a    ignorância primária) é diluída como a obscuridade na luz, naquela    Suprema Realidade, o UM sem segundo, o Absoluto?

403. Como se pode permitir alguma palavra sobre a diversidade da    Suprema Realidade, que é una e homogênea? Quem já viu alguma    diversidade no gozo do sono profundo?

404. Mesmo antes da realização da Suprema Verdade, o universo não    existe em Brahman, o Absoluto, a essência da Existência.

Em    nenhum dos três períodos do tempo (passado, presente ou futuro)    a serpente é vista na corda, nem a gota de água na miragem.

405. Os próprios Vedas declaram que do ponto de vista da Verdade    Absoluta, este universo dualista é mera ilusão.

A mesma    experiência se tem no sono profundo.

406. Segundo os sábios, o que está sobreposto em qualquer outra    coisa é idêntico ao substrato, da mesma forma que a corda que    aparece como a serpente.

A diferença aparente (observada pelo    ignorante) depende somente da ilusão (enquanto esta dura).

407. Este universo tem sua raiz na mente e jamais persiste se a    mente for aniquilada.

Assim que dissolva a mente concentrando-a    no Supremo Ser, tua essência mais íntima.

408. Pelo samadhi o sábio realiza em seu coração ao Infinito Brahman,    como algo (porque é indescritível) cuja natureza é Conhecimento    Eterno e Bem-aventurança Absoluta, que não tem outro exemplar,    que transcende toda limitação, que é sempre livre e sem atividade    alguma, e é como o espaço ilimitado, indivisível e absoluto.

409. Pelo samadhi o sábio realiza em seu coração ao Infinito Brahman    que está desprovido dos conceitos de causa e efeito, que é a    Realidade além de toda a imaginação, homogêneo, incomparável,    longe de todo tipo de provas (salvo a revelação ou conhecimento    direto). Aquilo está estabelecido pelos ditos dos Vedas, (que os    hindus aceitam como infalíveis), e sempre conhecido como o    sentido do “Eu” (ninguém pode negá-lo).

410. Pelo samadhi o sábio realiza em seu coração ao Infinito Brahman    que jamais envelhece nem morre, a Entidade Positiva (porque é a    Realidade Absoluta) que impede toda negação, que se assemelha

ao plácido oceano, que não tem nenhum nome, em que não existe    o mérito nem o demérito, o Eterno, pacificado e Uno.

411. Submergindo completamente o órgão interno (a mente, o    intelecto, etc.) no samadhi, contempla a teu Ser no Atman, cuja    glória é infinita e corta tuas amarras fortalecidas pelas impressões    de vidas passadas e com cuidado conquista a meta de tua vida    humana.

412. Medita sobre o Atman que reside em ti (como teu próprio Ser),    que não tem nenhuma qualidade limitante, que é a Existência-    Conhecimento-Bem-aventurança Absoluta, o UM sem segundo e    assim não voltarás mais ao círculo do nascimento e morte.

413. Uma vez que o jogou fora como um cadáver, o sábio não se liga    mais a este corpo, ainda que este mantenha uma aparência visível    como a sombra do homem, pela força do prarabdha (o efeito das    impressões passadas, que continua agindo mesmo depois do    samadhi, mas não produz mais novas causas).

414. Realizando intimamente o Atman, o infinito, puro conhecimento e    bem-aventurança, joga para longe esta limitação do corpo, cuja    natureza é inerte e suja.

Em seguida, não o recorde mais, porque    recordar o que foi vomitado só causa desgosto.

415. Queimando tudo isto (o não-Ser) com sua raiz no fogo de    Brahman, o eterno e Absoluto Ser, o verdadeiro sábio permanece    só, como Atman, Puro Conhecimento e Bem-aventurança.

416. O conhecedor da Verdade não se preocupa mais se este corpo,    tecido com os fios do prarabdha se rompe ou permanece intacto,    como a guirlanda no pescoço da vaca (que ela não aprecia nem    despreza). As forças mentais do sábio estão aquietadas em    Brahman, a essência da Bem-aventurança.

417. O conhecedor da Verdade, depois de realizar ao Atman, a Bem-    aventurança Infinita, como seu próprio Ser, com que objeto ou    para quem cuidará seu corpo?

418. O Yogui que conseguiu a perfeição e a liberação nesta vida, goza    interna e externamente a Bem-aventurança Infinita em sua mente.

419. O resultado do desapego é conhecimento superior, do    conhecimento resulta o afastamento dos prazeres sensórios, o que    nos leva a experiência da bem-aventurança do Ser e em seguida    vem a Paz Suprema.

420. Em uma série de acontecimentos, se os posteriores deixam de    aparecer, os anteriores permanecem estéreis.

Mas quando a série    é perfeita, naturalmente se seguem uma após a outra, a cessação    do mundo objetivo, a extrema satisfação e a Bem-aventurança    Suprema.

421. A serenidade diante dos sofrimentos visíveis (deste mundo) é o    resultado    do   Conhecimento.

Aquele   que   cometeu     atos    repugnantes, influenciado pela ilusão, como pode repeti-los quando    possui o discernimento?

422. O poder de afastar-se dos objetos sensórios nasce do    Conhecimento e o apego por eles vem da ignorância.

O mesmo é    observado no caso de alguém que conhece a miragem e outro que    não a conhece.

Fora isto, que outro resultado tangível logra o    conhecedor de Brahman? (Este mundo aparece igualmente a um    sábio e a um néscio.

O sábio o conhece como irreal e permanece    indiferente diante de suas atrações, mas o néscio que o considera    como real é arrastado pelas tentações e é arruinado).

423. Para aquele que sente aversão diante dos prazeres sensórios,    quando o nó da ignorancia em seu coração está totalmente    destruído, que causa pode existir para induzi-lo a cometer atos    egoístas?

424. O desapego chega a sua culminação quando os objetos sensórios    não podem despertar mais desejos.

A suprema perfeição do    conhecimento é a ausência total dos impulsos egoístas.

Alcança-se    o máximo limite de retiro em si mesmo quando não reaparecem    mais as funções mentais, que foram suprimidas.

425. Aquele que é liberado de todo sentido da realidade dos objetos    sensórios por permanecer submerso em Brahman, só participa    aparentemente, como um menino ou semi-adormecido, dos    objetos sensórios que outros lhe oferecem; ele contempla este    mundo como se fosse feito de sonho e tem certo conhecimento do    mesmo em momentos ocasionais; este homem é realmente    extraordinário; só ele é bendito e estimado por todos e desfruta do    resultado do infinito mérito.

426. Este yati está firme no Conhecimento Supremo, é equânime,    invariável e livre de atividades, e submergindo totalmente seu ser    em Brahman goza a Bem-aventurança Eterna.

427. A Iluminação Suprema é aquela classe de função mental,    totalmente purificada de seus adjuntos, que reconhece só a    identidade de jiva e Brahman, que é completamente livre de    dualidade e se ocupa unicamente da Inteligência Pura.

Aquele que    tem esse Conhecimento é chamado sthita prajna (homem de firme    iluminação).

428. Aquele sthita prajna que possui constante felicidade, que quase    se esqueceu deste mundo fenomenal, é reconhecido como    jivanmukta (livre ainda estando nesta vida).

429. Aquele que, ainda que tenha sua mente submersa em Brahman,    está bem alerta e ao mesmo tempo está livre das características do    estado de vigília (não reconhece os objetos sensórios nem está    apegado a eles), cujo conhecimento está livre dos desejos, é    reconhecido como jivanmukta.

430. Aquele cujas preocupações pelo estado fenomenal cessaram,    ainda que possua um corpo feito de partes, é livre de partes (como    Brahman) e cuja mente não tem ansiedade alguma, é reconhecido    como jivanmukta.

431. A ausência das ideias “eu” e “meu” mesmo neste corpo que lhe    segue como uma sombra é um dos signos do jivanmukta.

432. Não recordar ao passado, não preocupar-se pelo futuro e ser    indiferente ao presente, são signos do jivanmukta.

433. Contemplar com olhos de igualdade a todos neste mundo, que    por natureza são distintos e cheios de méritos ou deméritos é    característico do jivanmukta.

434. Manter-se sereno, em atitude de igualdade tanto diante de coisas    agradáveis como desagradáveis, é característico do jivanmukta.

435. É um jivanmukta aquele yati (monge) cuja mente, por estar    absorvida saboreando a bem-aventurança de Brahman, não    reconhece nem a ideia do interior nem do exterior.

436. Aquele que vive indiferente a todas as ideias de “eu” e “meu”    com respeito ao corpo, aos órgãos, etc., e também de seus    deveres.

É conhecido como um jivanmukta.

437. Aquele que realizou seu estado de Brahman com a ajuda das    escrituras (praticando o discernimento segundo os mandamentos)    e é livre da transmigração, é um jivanmukta.

438. Aquele que nunca tem a ideia de “eu” com respeito ao corpo, aos    órgãos, etc., nem a ideia de que os objetos são reais, é    reconhecido como um jivanmukta.

439. Aquele que por seu superior conhecimento jamais faz diferença    entre jiva e Brahman, nem entre Brahman e o universo, é    conhecido como um jivanmukta.

440. Aquele que sente o mesmo quando sua pessoa é venerada pelas    pessoas boas ou atormentada pelos malvados, é conhecido como    um jivanmukta.

441. Aquele yati é realmente liberado no qual os objetos sensórios    dirigidos por outros são absorvidos sem causar-lhe nenhuma    mudança, como as águas do rio pelo mar, porque ele está    identificado com a Existência Absoluta.

442. Para aquele que realizou intimamente a Verdade de Brahman,    não há mais apego, como antes, aos objetos dos sentidos.

Se    existe algo (de apego) então esse homem não realizou a    identidade com Brahman, é um (qualquer) cujos sentidos se    encontram dirigidos para fora.

443. Se afirmar-se que seu apego nasce do resto do impulso de seus    velhos desejos, nossa contestação é não.

Porque os desejos se    debilitam pela identificação com Brahman.

444. Mesmo a má propensão do homem mais libertino é contida na    presença de sua mãe; assim ao realizar a completa união com    Brahman, a Bem-aventurança Absoluta, não fica mais nenhuma    tendência mundana.

445. Nota-se (às vezes) que o praticante de constante meditação tem    (ainda) percepção externa (como necessidades físicas ou desejo de    ensinar a outros). Os Shrutis mencionam que o prarabdha    (resultado da forte impressão das ações na vida passada que    engendraram o corpo atual e o mantém vivo até que este resultado    se esgote) é a causa disto, e vendo outros fatos (do praticante)    também nós inferimos o mesmo.

446. Enquanto haja percepção de gozo e outras coisas, se reconhece a    duração do prarabdha.

Cada resultado é precedido por uma ação e    jamais se viu um resultado independente de uma ação anterior.

447. Quando realizamos nossa identidade com Brahman, todos os    resultados de milhares de milhões de ciclos são aniquilados, da    mesma forma que os atos do sonho ao despertar-nos.

448. Quando uma pessoa se desperta, por acaso as boas ou más    ações com que sonhou a conduzem ao céu ou ao inferno?

449. Realizando ao Atman, que é inconexo e indiferente como o    espaço, o aspirante não se mancha em absoluto pelas ações    futuras.

450. O espaço não é afetado pelo odor do licor pelo seu mero contato    com a garrafa; da mesma forma o Atman não é afetado pelas    propriedades dos upadhis (com os conceitos de eu, o corpo, etc.)    com os quais está aparentemente conectado.

451. Igual que a flecha atirada em um objeto (não pode ser detida),    assim o karma (resultado das impressões passadas que causaram    este corpo antes da aurora do Conhecimento) não pode ser    destruído pelo mesmo Conhecimento.

452. A flecha atirada em um objeto que primeiro foi considerado um    tigre, e em seguida quando se viu melhor, resultou ser uma vaca,    já não se detém e perfura o objeto com toda sua força.

453. Sem dúvida o prarabdha karma é muito forte para o sábio e só    se esgota quando termina seu curso pela experiência; mas os    outros dois karmas, sanchita e agami, são consumidos pelo fogo do    perfeito conhecimento.

(Sanchita, literalmente, acumulado, são as    impressões acumuladas de todas as vidas passadas; Agami    significa futuro). Mas nenhum dos três tipos de karma afeta algo a    aqueles que depois de realizar sua identidade com Brahman, vivem    sempre absortos neste estado.

Estes seres realmente são como o    transcendental Brahman.

454. Como para aquele que se despertou não existe a questão da    conexão com os objetos vistos durante o sonho, da mesma forma    para o sábio que vive como Brahman em seu próprio Ser, o UM    sem segundo, livre da identificação com os upadhis (os conceitos    de ego, intelecto, etc.) a questão do prarabdha karma não tem    sentido.

455. O desperto continua vivendo bem desperto como seu próprio Ser,    e não mantém nenhum conceito de “eu e meu” com relação ao seu    corpo de sonhos e os objetos oferecidos ao corpo em tal estado.

456. Ele não tem nenhum desejo de substanciar os objetos irreais,    nem se vê a ele mantendo esse mundo de sonho.

Mas se continua    preso a aqueles objetos irreais, então com certeza continua    sonhando.

457. Similarmente, aquele que está absorto em Brahman, continua    identificado com o Eterno Atman e não contempla nenhuma outra    coisa.

Como alguém recorda os objetos vistos em um sonho, assim    o sábio recorda os atos diários de comer, etc.

458. Como o corpo está feito pelo karma (a força das impressões    passadas), se pode imaginar que o prarabdha karma o fez; mas    não é razoável considerar ao prarabdha como causa do Atman,    porque o Atman não tem nenhuma causa anterior.

459. Os Shrutis, cujos mandamentos são infalíveis, declaram que o    Atman é eterno, jamais nasce nem envelhece.

Por isso, como se    pode atribuir o prarabdha a alguém que vive identificado com o    Atman?

460. A doutrina do prarabdha só é efetiva enquanto que se viva    identificado com o corpo.

Mas ninguém admite que o homem de    suprema realização se identifique alguma vez com o corpo.

Por    isso, em seu caso, a ideia de prarabdha deve ser descartada.

461. Atribuir a doutrina do prarabdha mesmo ao corpo, é certamente    um erro.

Pois, como pode ter existência (o corpo, a obra de maya)    algo que está sobreposto? Como pode nascer o que é irreal? Como    pode morrer algo que jamais nasceu? Por isso como pode existir a    doutrina do prarabdha para algo que é irreal? (Shankara com sua    sutilíssima inteligência prova que nenhuma lei pode manipular algo    que é irreal).

462. -463. Só para convencer a aqueles néscios que têm a seguinte    dúvida: Como pode viver o corpo se os efeitos da ignorância até    sua raiz são destruídos pelo Supremo Conhecimento? Os Vedas, do    ponto de vista relativo, hipoteticamente, mencionam ao prarabdha,    mas jamais para provar a realidade do corpo, etc., de alguém que    tem o Supremo Conhecimento.

464. Só existe Brahman, o UM sem segundo, infinito, sem princípio,    sem fim, transcendental e imutável.

Naquele não há nenhuma    dualidade.

465. Só existe Brahman, o UM sem segundo, a Essência da Existência-    Conhecimento-Bem-aventurança Eterna e isento de atividade.

Naquele não há nenhuma dualidade.

466. Só existe Brahman, o UM sem segundo, que é imanente em tudo,    homogêneo, infinito e onipresente.

Naquele não há nenhuma    dualidade.

467. Só existe Brahman, o UM sem segundo, que não se pode nem    apreciar, nem desprezar, nem aceitar.

Aquele não tem suporte    algum (porque é auto-existente). Naquele não há dualidade    alguma.

468. Só existe Brahman, o UM sem segundo, sem atributos, sem    partes, sutil, Absoluto e imaculado.

Naquele não há dualidade    alguma.

469. Só existe Brahman, o UM sem segundo, cuja verdadeira natureza    é incompreensível e que está além do alcance da fala e da mente.

Naquele não há nenhuma dualidade.

470. Só existe Brahman, o UM sem segundo, a Realidade,    resplandecente, auto-existente, puro, a Inteligência Absoluta,    incomparável e ilimitado.

Naquele não há nenhuma dualidade.

471. Os nobres monges que se liberaram de todo apego, que    renunciaram a todos os prazeres sensórios, os pacificados, os    perfeitamente controlados, realizam esta Suprema Verdade e ao    final (quando deixam seus corpos) obtêm a Bem-aventurança    Suprema pela união com o Atman.

472. Tu também faças o discernimento sobre esta Suprema Verdade,    a verdadeira natureza do Ser, que é a Bem-aventurança    condensada e abandonando a ilusão criada por tua própria mente,    seja livre, desperte (do sonho da irrealidade) e conseguirás a    consumação de tua vida.

473. Quando a mente permanece perfeitamente quieta no samadhi,    visualize a Verdade do Ser pelos olhos da realização clara.

Se o    significado dos ditos (sagrados) ouvidos dos lábios do Guru, é    perfeita e definitivamente discernido, então não te surgirão mais    dúvidas.

474. As escrituras, o discernimento, as palavras do Guru, são as    provas com relação à realização íntima do Atman, a Existência-    Conhecimento-Bem-aventurança Absoluta, que se logra rompendo    nossa conexão com as amarras da ignorância; mas a experiência    própria que nasce da concentração mental (em samadhi) é outra    prova (a definitiva).

475. A corrente que amarra, liberação, satisfação, ansiedade,    convalescência e fome, etc., são percepções puramente pessoais;    o conhecimento delas por outros é mera inferência (indireto).

476. Os Gurus e os Vedas instruem e aconselham a seus discípulos    desde a margem (para que cruzem o oceano da ignorância), mas o    homem de Suprema Realização cruza o oceano de avidya    (ignorância primária) por sua própria iluminação, ajudado pela    Graça Divina.

(O conhecimento indireto nasce da leitura e dos    conselhos dos mestres, mas o conhecimento direto é o resultado    da auto-iluminação). 477. Conhecendo intimamente a seu Ser individual pela realização    profunda e alcançando assim a perfeição, o homem com sua mente    purificada das idéias dualistas visualiza diretamente ao Atman.

478. O veredicto de todos os tratados de Vedanta é que o jiva e o    universo inteiro não são nada além do que Brahman, e a liberação    significa a permanência em Brahman, a entidade indivisível.

Os    próprios Vedas declaram com autoridade que Brahman é UM sem    segundo.

479. Em um momento bendito, o discípulo realizou a união com a    Suprema Verdade pelas já mencionadas instruções do Guru, pela    (fé na) autoridade dos Vedas e por seu próprio discernimento; seus    sentidos se purificaram, a mente permaneceu concentrada, o corpo    se tornou imóvel e ele permaneceu perfeitamente estabelecido no    Atman.

480. Depois de estar concentrado profundamente em Brahman    durante certo tempo, quando o discípulo voltou ao plano da    consciência comum, cheio de Bem-aventurança Suprema, disse o    seguinte:

481. Pela realização da identidade do Ser e Brahman, o intelecto está    destruído e suas atividades se diluíram.

Agora não sei nada disto,    nem de não-isto, e não sei o quê ou quanto é a Bem-aventurança    ilimitada!

482. É realmente impossível expressar com palavras ou conceber com    a mente a majestade do oceano do Supremo Brahman, repleto de    néctar, a Bem-aventurança do Ser; minha mente, que era uma    fração infinitesimal, como um granizo se derreteu naquele oceano,    e se dissolveu.

Agora, essa mente está completamente satisfeita    daquela essência de Bem-aventurança.

483. Onde desapareceu o universo? Quem o levou? Em quê se diluiu?    Até pouco tempo atrás era visto.

Deixou de existir? Que maravilha!

484. No oceano de Brahman, cheio do néctar da Bem-aventurança    Absoluta, o que é detestável, o que é aceitável, quem é o segundo    e o que é diferente? (Não existe nenhum conceito de distinção.)

485. Neste estado (Supremo) nada vejo, nada ouço, nada conheço, só    existo como o Ser, a Bem-aventurança Eterna, distinto do resto    (porque sou o sujeito).

486. Saúdo-te repetidas vezes, ó nobre mestre! Tu não tens apego, és    o melhor entre as almas boas, és a figura condensada da essência

da Bem-aventurança Eterna, o UM sem segundo, o infinito e    permanente oceano da bondade ilimitada.

487. Teu olhar, como a chuva de concentrados raios lunares, tirou    meu esgotamento produzido pelas aflições mundanas e em um    instante me levou ao incorruptível estado de Atman, a Bem-    aventurança de infinita majestade.

488. Sou bem-aventurado, alcancei a meta de minha vida, estou livre    das garras da transmigração; sou a essência da Bem-aventurança    Eterna, sou o infinito; tudo isto por tua graça.

489. Sou desapegado, incorpóreo, livre do corpo sutil, inalterável,    pacificado, infinito, imaculado e eterno.

490. Não sou o ator, nem o experimentador, sou o imutável, além das    atividades, sou a essência do Conhecimento puro, o Absoluto e    estou identificado com a bondade eterna.

491. Sou realmente distinto daquele que vê, ouve, fala, atua e    experimenta; sou a essência do Conhecimento, ininterrupto; sem    atividade, limite e apego, sou o infinito.

492. Não sou isto nem aquilo (objetos da percepção direta ou    indireta), sou o Supremo, o iluminador de ambos, sou realmente    Brahman, o UM sem segundo, puro, sem exterior nem interior, sou    o infinito.

493. Sou realmente Brahman, o UM sem segundo, incomparável, a    Realidade sem princípio, longe das imaginações como “tu”, “eu”,    “isto” e “aquilo”, sou a essência da Bem-aventurança eterna, sou a    Verdade.

494. Sou Narayana (Vishnú), o destruidor do demônio Naraka; (sou    Shiva) o destruidor do demônio Tripura; sou o Supremo Ser e    governante, o Conhecimento Absoluto, a Testemunha de tudo, sem    idéias de “eu” e “meu”.

495. Somente eu resido como o Conhecimento nos seres, sou seu    suporte externo e interno; sou o experimentador e os objetos da    experiência, tudo aquilo que antes considerava como “isto” e o    não-Ser.

496. Em mim, no oceano da Bem-aventurança infinita, os ilusórios    ventos de maya criam e destroem as ondas do universo.

497. As pessoas pela manifestação (ilusória) dos objetos sobrepostos    erroneamente, imagina em mim as idéias de densidade e outras,

do mesmo modo como imaginamos os ciclos, anos, semestres,    temporadas, etc., no tempo indivisível e absoluto.

498. O que impõem os néscios muito ignorantes sobre o substrato    jamais o suja.

As grandes correntes de água vistas na miragem    jamais molham o deserto.

499. Como o céu, jamais posso ser contaminado; como o sol, sou    distinto dos objetos iluminados; sou sempre imóvel como a    montanha e ilimitado como o oceano.

500. Da mesma forma que o céu não tem nenhuma conexão com as    nuvens, assim não a tenho com o corpo; por isso como podem    afetar-me os estados de vigília, [o estado dos] sonhos e sono    profundo, que são atributos corpóreos?

501. O que vem e se vai é o upadhi (atributo sobreposto), é ele que    atua e experimenta seus frutos, é ele que decai e morre, enquanto    que eu sempre permaneço firme como o monte Kula.

502. Para mim, que sou sempre o mesmo e não tenho partes, não há    impulsos para a ação, nem para a renúncia [da ação]. Como é    possível que faça algum esforço Aquele que é UM, concentrado    (como o sal), ininterrupto e infinito como o espaço?

503. Como podem existir méritos e deméritos para mim, que sou sem    órgãos, mente, forma e mudanças? Sou a Realização da Bem-    aventurança Absoluta.

Também os Vedas dizem o mesmo na    passagem: “Não tocado pelos méritos, etc.,”.

504. Se por acaso a sombra do corpo de um homem é tocada pelo    calor ou frio, o bem ou o mal, ele não se sente afetado em nada,    porque é distinto da sombra.

505. Como as qualidades dos objetos de uma sala não afetam a    lâmpada (que a ilumina), assim também as qualidades dos objetos    observados pela Testemunha, que é distinta deles e é imutável e    indiferente, não lhe afetam em nada.

506. Assim como o sol é uma mera testemunha das ações humanas,    como o fogo queita tudo sem distinção, como a corda está    relacionada com algo sobreposto (a serpente imaginada), assim    também eu sou o Ser imutável, a Inteligência Absoluta.

507. Não sou o que atua [o ator] nem faço os outros atuarem; não    experimento e nem faço os outros experimentarem; não vejo e    não faço os outros verem; sou Aquele Atman auto-luminoso e    transcendente.

508. Ao mover-se o upadhi (neste caso a água), não se move o    reflexo do sol, mas os néscios atribuem o movimento ao próprio    sol, que é imóvel; assim também, (toda atividade de bud-dhi, o    intelecto, que é um upadhi de Atman é atribuída pelos néscios ao    puro Atman da seguinte maneira:) “Sou aquele que atua”, “Sou    aquele que experimenta”, “Ah, estou morrendo”.

509. Que caia este corpo inerte na água ou sobre a terra, não me    afetam suas qualidades, igual que o espaço, as qualidades da    jarra.

(O espaço aparentemente encerrado na jarra é o mesmo    espaço infinito que não sofre nenhuma modificação, dentro da    jarra ou quando está quebrada).

510. Os estados transitórios de bud-dhi tais como a atividade, inércia,    as amarras que ligam, liberdade e o resto, jamais pertencem ao    Ser, o Supremo Brahman, o UM sem segundo.

511. Que ocorram mudanças na prakriti de dez, cem ou mil maneiras,    que tem isto a ver comigo, o desapegado Conhecimento Absoluto?    As nuvens jamais tocam o céu.

512. Sou realmente aquele Brahman, o Um sem segundo, como o    espaço sutil, sem princípio, sem fim, em que todo o universo,    desde o não-manifestado até o corpo denso, aparece (para o    ignorante) tão só como uma sombra.

513. Sou realmente aquele Brahman, o Um sem segundo, que é a    base de tudo, que ilumina a tudo, multiforme, onipresente, isento    de multiplicidade, eterno, puro, imóvel e absoluto.

514. Sou realmente aquele Brahman, o Um sem segundo, que    transcende as diferenciações de maya, a mais íntima essência de    tudo, que está além de todo tipo de consciências, sou a Verdade, o    Conhecimento, a Infinitude e a Bem-aventurança Absoluta.

515. Sou sem atividade, mudanças, partes, nem formas, sou Absoluto,    Eterno, auto-sustentado, o UM sem segundo.

516. Sou o Universal, o todo, o Transcendental, o UM sem segundo,    Absoluto, Conhecimento infinito, homogêneo e a Bem-aventurança.

517. Pela suprema majestade de tua graça, recebi este esplendor da    soberana auto-refulgência.

Saúdo-te, ó glorioso e nobre mestre!    Saúdo-te repetidas vezes!

518. Ó Guru! Por tua graça fui despertado (da ignorância) e me    salvastes para sempre.

Estava vagando em um sonho    interminável.

519. (Estava vagando) em um bosque ilusório de nascimento, velhice    e morte, atormentado dia após dia por inesgotáveis aflições,    penosamente aterrorizado pelo tigre do egoísmo.

Saudações a ti. Ó    rei dos Gurus! A bondade inexpressável; Tu és sempre o mesmo e    te manifestas como este universo.

Saúdo-te.

520. Vendo ao digno discípulo, que logrou a bem-aventurança do Ser,    realizou a Verdade e tinha seu coração cheio de alegria,    prosternar-se diante dele, aquele nobre e ideal Guru lhe dirigiu as    seguintes palavras sublimes:

521. O universo é uma ininterrupta série de percepções de Brahman,    de maneira que é, em todos os sentidos, nada além de Brahman;    veja-o assim em todas as circunstâncias com olhos iluminados e    com a mente serena.

Existe alguém com olhos que veja algo mais    que formas ao seu redor? Assim, para um homem de suprema    realização, o que pode existir além de Brahman que ocupe todo    seu intelecto?

522. Onde existe um sábio que deixando o gozo da Bem-aventurança    Suprema brinque com objetos insignificantes? Quando brilha a    muito bela lua, quem quer ver a lua pintada?

523. Não há satisfação na percepção dos objetos irreais nem a    cessação do sofrimento nascido dela.

Por isso estando satisfeito na    realização da Bem-aventurança Absoluta, o UM sem segundo, viva    feliz, identificado com Brahman.

524. Ó alma nobre! Passa teu tempo contemplando apenas ao Atman,    pensando Naquele, o UM sem segundo e desfrutando da Felicidade    do Ser.

525. Os conceitos dualistas no Atman, o Conhecimento Infinito, o    Absoluto, são como castelos no ar. Por isso, identificando-se com a    Bem-aventurança Absoluta, o UM sem segundo, e assim logrando a    Paz Suprema, mantenha-se tranqüilo.

526. Para o sábio que realizou intimamente a Brahman e está    identificado com Aquele, a mente que é a causa das imaginações    irreais, está pacificada.

Realmente, esta é a plena quietude na qual    há constante gozo da Bem-aventurança Suprema, o UM sem    segundo.

527. Para aquele que conhece sua própria natureza e bebe a plena    felicidade do Ser, não existe melhor regozijo que a quietude    nascida do desapego.

528. Caminhando ou estando quieto, sentado ou deitado, ou em    qualquer outra situação em que se encontre o sábio iluminado,    cujo único deleite está no Ser, sempre vive satisfeito.

529. Aquela alma nobre que realizou perfeitamente a Verdade e cujas    funções mentais estão livres de obstáculos, não depende mais das    condições de lugar, tempo, postura do corpo, direções cardeais,    disciplinas morais, idéias (ou objetos) de meditação e outras    coisas.

Para conhecer ao próprio Ser, que condições reguladoras    podem existir?

530. Para conhecer que esta é uma jarra, que outra condição é    necessária mais de que o meio de conhecimento (por exemplo, os    olhos para ver) seja livre de defeitos? Porque só isto (o meio do    conhecimento sem defeito) assegura o conhecimento do objeto.

531. Assim este Atman, a Realidade Eterna, se manifesta enquanto    está presente o verdadeiro meio de conhecimento superior e não    depende de lugar, tempo ou purificação (interna).

532. A consciência de que “Sou Devadatta” (Sou Fulano) é    independente das circunstâncias; de forma similar o conhecedor de    Brahman tem o conhecimento: “Sou Brahman”.

533. Aquele cuja refulgência, como a do sol, ilumina a todo o    universo; como é possível que algo sem substância, irreal e    insignificante possa manifestá-lo?

534. Na realidade, o que pode iluminar ao Eterno Sujeito que dá    significado aos Vedas, Puranas e outras escrituras e também aos    seres?

535. Aqui está o auto-luminoso Atman, de infinito poder, além de todo    tipo de conhecimento condicionado, mas a quem todos sentem    (como seu próprio Ser); só conhecendo-o pode-se tornar o    supremo conhecedor de Brahman e sendo livre vive sua gloriosa    vida.

536. Satisfeito pelo néctar puro de Bem-aventurança Absoluta, (o    supremo conhecedor) não se aflige nem se alegra pelos objetos    sensórios, não sente apego nem aversão por eles e sempre se    deleita satisfeito no Ser.

537. Como um menino brinca com seus brinquedos esquecendo a    fome e as dores físicas, exatamente assim o emancipado se    regozija na Realidade e está contente sem as idéias de “eu e meu”.

538. Os seres emancipados conseguem seu alimento mendigando-o    sem as idéias de ansiedade ou humilhação e a bebida, da água dos    rios; vivem livres e despreocupados, dormem sem temor nos    bosques, campos ou crematórios; seus trajes podem ser feitos das    próprias direções cardeais (andam nus) não necessitando lavar-se    ou secar-se, ou feitos de qualquer folhagem das árvores; a terra é    seu leito, passeiam pelas avenidas da Vedanta (conhecimento    superior) e passam seu tempo no Supremo Brahman.

539. O conhecedor do Atman não leva nenhum signo externo, não tem    apego aos objetos sensórios, mora no corpo sem identificar-se com    ele, e experimenta como um menino todo tipo de objetos sensórios    como se apresentam, ou segundo o desejo dos demais (amigos ou    devotos) (para terminar o prarabdha karma).

540. Estabelecido no plano do Conhecimento Absoluto, vaga pelo    mundo, ora como um louco, ora como uma criança, ou como um    mendigo, às vezes nu, às vezes bem vestido, às vezes coberto por    uma pele ou folhagem de árvore.

541. Sendo a figura do não-desejo, sempre satisfeito com seu próprio    Ser, e sentindo-se presente em tudo, o sábio vive só e desfruta    dos objetos.

542. Às vezes como um néscio, ou como um sábio, ou com o    esplendor de um rei, às vezes vagando (sem propósito), às vezes    imóvel como uma cobra (sem fazer esforço pra buscar a comida);    às vezes com expressão benigna; honrado, insultado ou    desconhecido, assim vive o emancipado, sempre satisfeito com a    Bem-aventurança Suprema.

543. Ainda que não possua riquezas, sempre está contente; ainda que    esteja desamparado, sempre é muito forte; ainda que não goze    dos objetos sensórios, está eternamente satisfeito; ainda que seja    incomparável, ele é o mesmo para todos.

544. Ainda que atue, é inativo (porque não tem nenhum conceito da    individualidade); ainda que experimente os resultados das ações    passadas, é desapegado; ainda que esteja em um corpo, não se    identifica com este; ainda que (pareça) limitado, é onipresente.

545. A este conhecedor de Brahman que sempre vive sem nenhuma    idéia corpórea, jamais lhe afeta nem o prazer, nem a dor, nem o    bem, nem o mal.

546. O prazer ou a dor, como o bem ou o mal, afetam só aquele que    está conectado com o corpo denso e os demais.

Mas, como podem

afetar o bem, o mal, ou seus efeitos, ao sábio que se identificou    com a Realidade e que despedaçou as correntes que lhe prendem?

547. O sol parece ser devorado por Rahu (segundo a crença popular    dos hindus que assim interpretam o eclipse solar), mas nunca na    realidade.

Só as pessoas que estão sob a ilusão (da ignorância    primária) e não conhecem a verdadeira natureza do sol, opinam    que Rahu realmente devora o sol.

548. Assim as pessoas ignorantes, vendo só a aparência, opinam que    é corpóreo o perfeito conhecedor de Brahman, o qual está    completamente livre de todas as amarras corpóreas.

549. No entanto, o sábio vive descartando o corpo (des-identificando-    se), como a serpente que retirou sua pele; seu corpo é movido    para cá ou para lá pela força do prana (força vital).

550. Como um pedaço de madeira é levado aos lugares altos ou    baixos pela corrente (do rio), assim seu corpo é levado pelo    impulso das ações passadas, para que experimente os frutos    quando se apresentam.

551. O homem de suprema realização, que não tem nenhuma idéia    corpórea, se move entre os objetos sensórios, aparentemente    como um homem sujeito à transmigração, pelos desejos    engendrados pelo prarabdha karma.

(Assim o considera o    ignorante, porque em realidade, o prarabdha não o afeta em    nada). No entanto, ele vive no corpo sem ser afetado, como uma    testemunha, bem livre de oscilações mentais, como o eixo da roda    do ceramista.

552. Não dirige os órgãos sensórios até os objetos, nem os retira    deles, mas permanece como um espectador indiferente.

Tampouco    presta alguma atenção aos frutos das ações, porque sua mente    está completamente embriagada do néctar da bem-aventurança do    Atman.

553. Aquele que, abandonando as noções de apreciação ou desprezo    vive como o Absoluto Atman, é realmente Shiva (Deus) mesmo e o    melhor entre os conhecedores de Brahman.

554. Pela destruição das limitações, o perfeito conhecedor de Brahman    está unido com o único Brahman sem segundo, como sempre    esteve (só que antes não o sabia). Conquistando o ideal de sua    vida se sempre perfeitamente livre mesmo nesta vida.

555. Como um ator (de teatro) que se veste especialmente para uma    representação, ou se veste em traje de rua, sempre é o mesmo    homem, assim o perfeito conhecedor de Brahman sempre é    Brahman e nada mais.

556. Que se seque e caia como uma folha de árvore em qualquer    parte, o corpo do yati, que se identificou com Brahman, porque    aquele já foi queimado pelo fogo do Conhecimento Supremo.

557. O sábio que vive sempre na Realidade, na Bem-aventurança    infinita, em Brahman, não depende mais de suas costumeiras    considerações de lugar, tempo, etc., para deixar esta massa de    pele, carne, e coisas sujas.

(Como o corpo já serviu o seu    propósito, pode deixá-lo assim que quiser).

558. Porque deixar o corpo ou o bastão e o pote de água (que são    insígnias de um monge) não significam a liberação, que consiste na    destruição do nó do coração, a ignorância primária.

(A renúncia    externa não tem muita eficácia).

559. Se uma folha cai em um arroio ou em um rio, ou em um lugar    santificado por Shiva (por Sua viva presença), ou em uma    encruzilhada, que bem ou mal pode causar à árvore?

560. A destruição do corpo, os órgãos, pranas e bud-dhi, é como a    queda de uma folha, flor ou fruto; não afeta nada ao Atman, a    Realidade, a Bem-aventurança condensada, que é nossa    verdadeira natureza.

Este sobrevive, como a árvore.

561. Os Vedas quando querem afirmar a verdadeira natureza do    Atman, pela seguinte frase: “O Conhecimento condensado, etc.”,    falam da destruição somente das limitações.

(Veja Brihadaranyaka    Upanishad, IV-5-13).

562. “Realmente, minha querida, este Atman é imortal” (conversação    entre Yagñavalkya e sua consorte Moitreyi).

563. Como ao serem queimados, a pedra, a árvore, a palha, o arroz, o    farelo, etc., todos (sem distinção) se reduzem a terra (cinzas),    assim o universo inteiro composto de corpo, órgãos, prana, mente,    etc., quando está consumido pelo fogo de conhecimento, se reduz    ao Supremo Ser.

564. Assim como a obscuridade que é distinta (da luz) desaparece no    resplendor do sol, o inteiro universo objetivo (ao surgir o    conhecimento superior) se submerge em Brahman.

565. Assim como ao romper-se a jarra, o espaço encerrado nela se    confunde evidentemente no espaço ilimitado, do mesmo modo

quando se destroem todas as limitações o conhecedor de Brahman    se converte em Brahman mesmo.

566. Assim como ao verter-se o leite no leite, o azeite no azeite, a    água na água, se une e volta a ser o mesmo, o sábio que realizou    intimamente ao Atman, se une para sempre com Ele.

567. Realizando assim o extremo isolamento (total desapego) que    nasce da incorporeidade e identificando-se eternamente com a    Realidade Absoluta, Brahman, o sábio não sofre mais a    transmigração.

568. Como seus corpos (denso, sutil e causal) que estão feitos de    avidya (ignorância) e seus efeitos, foram queimados pela    identificação do jiva e Brahman, o sábio se transforma em    Brahman, e como pode Brahman renascer?

569. A escravidão e a liberação que Maya conjura, não existem no    Atman, a Realidade de si mesmo, como o aparecer e desaparecer    da serpente (ilusória) não está na corda, a qual não sofre nenhuma    mudança.

570. Segundo esteja presente ou ausente um véu encobridor, se pode    falar de escravidão e liberação.

Mas não pode existir nenhum véu    encobridor para Brahman, que está sempre descoberto, porque    não existe nada além Daquele.

Se existisse, a não-dualidade de    Brahman seria refutada.

Também os Shrutis jamais admitem o    conceito de dualidade.

571. A escravidão e a liberação são atributos do bud-dhi (o intelecto),    que os ignorantes sobrepõem à Realidade, como quando a visão    está coberta (obstaculizada) pelas nuvens e se diz que o sol está    coberto.

Este Brahman imutável é Conhecimento Absoluto, o UM    sem segundo, e inconexo.

572. As idéias de que existe a escravidão ou não, são com relação à    Realidade, meros atributos do bud-dhi e jamais pertencem a    Realidade Eterna, Brahman.

573. De maneira que a escravidão e a liberação são criações de Maya    e não existem no Atman.

Como pode existir alguma idéia de    limitação com respeito à Suprema Verdade, que é como o infinito    espaço, que não tem partes, nem atividade, que é calma,    soberana, imaculada, o UM sem segundo?

574. Não há morte nem nascimento, nem o ser ligado nem o    praticante espiritual; não há aspirante à liberação nem o liberado.

Esta é a verdade última.

(Desde o ponto de vista monista, a    Verdade, a Realidade ou a Existência é única, é o absoluto, o resto    é condicionado, relativo e transitório.

Aquela Verdade não pode ser    expressa em termos positivos.

A auto-realização espiritual é    alcançada pelo método do discernimento puro entre o Real e a    não-realidade).

575. Considerando-te um aspirante à liberação, purificado das    manchas desta era da ignorância (e bem preparado) porque tua    mente está livre de desejos, hoje várias vezes eu lhe revelei, como    ao próprio filho, este excelente e profundo segredo (conhecimento)    que é o mais íntimo significado de toda a doutrina da Vedanta, a    coroa dos Vedas.

576. Ouvindo estas palavras do Guru, o discípulo, com profunda    reverência, se prostrou diante dele e em seguida com sua    permissão partiu, liberado da escravidão.

577. E o Guru, com a mente submersa no oceano da Existência e    Bem-aventurança Absoluta, seguiu caminhando, purificando com    sua presença ao mundo inteiro, havendo desaparecido toda    diferenciação de sua mente.

578. Assim, na forma de diálogo entre Guru e discípulo, foi narrada a    natureza do Atman, para a fácil compreensão do aspirante à    liberação.

579. Que aqueles yatis, aspirantes à liberação, purificados das    manchas da mente pelos métodos prescritos, que têm aversão aos    prazeres mundanos, cuja mente está tranqüila e que se deleitam    nos Shrutis, apreciem este ensinamento saudável.

580. Para aqueles que sofreram nesta vida mundana pelos queimantes    raios do tríplice sofrimento (corpóreo e mental; penúrias que vêm    da natureza, como terremotos, ciclones, etc., e os que vêm dos    animais) e os que iludidos vagam no deserto em busca de água,    para eles eis aqui a triunfante mensagem de Shankara, indicando-    lhes o muito próximo, reconfortante oceano de néctar, Brahman, o    UM sem segundo, para guiá-los até a liberação final.

ॐ